Opinião

Perdemos nossa versão da Leila Diniz

Neyde foi a 1ª advogada jundiaiense, formada pela PUC


ALEXANDRE MARTINS
ARTICULISTA ELISA CARLOS
Crédito: ALEXANDRE MARTINS

Nunca liguei para essa coisa de ancestralidade, minha curiosidade e respeito pelo tema são muito recentes. Mas, nessa semana as minhas raízes foram expostas. Minha tia Neyde Carlos Pereira, irmã do meu pai, faleceu na quarta feira passada (2), antes do feriado. Morreu serena, ao lado de quem nas últimas décadas sempre esteve com ela, seu neto Matheus e sua filha Mazinha.

Minha tia sempre foi um ícone da liberdade. Chegou a ser comparada à Leila Diniz. Talvez devesse ser o contrário, porque a sua ousadia veio antes do nosso ícone nacional. A diferença principal é que Leila Diniz passeava em Ipanema e minha tia na rua Barão de Jundiaí, na Paulicéia. No dia da sua morte, na casa do meu pai, revi sua história e fiquei admirada. Não sabia quem era minha tia.

Ela foi a primeira advogada jundiaiense, formada pela Pontifícia Universidade Católica (PUC) de Campinas. Passou em primeiro lugar em um concurso do Ministério do Trabalho. Jogava no time de basquete e vôlei desde 1950. E foi ela quem fez a primeira cesta no primeiro jogo que estreou o ginásio Bolão.

Aos 16 anos foi a aluna mais nova de todo o Brasil a se formar em canto na faculdade de Música, Ciências e Letras de Campinas. Era também pianista - ops, corrijo-me como ela sempre corrigiu meu pai: ela era concertista.

Antes dos 18 anos já era professora primária formada pelo Anchieta. Foi técnica de alimentação do Sesi durante muitos anos e abriu um restaurante famoso aqui em Jundiaí, o tal do "Arroz, feijão e companhia", o lugar dos políticos. Delfim Netto quando voltava para cá não cozinhava, o "Arroz, feijão" era a extensão da sua casa.

Eu herdei os seus livros de cozinha, ela se inspirava em Paul Bocuse, antes mesmo de conseguirmos saber quem são os melhores chefs do mundo pelo Instagram. Seu feijão era sem alho. O meu também, tia, que aprendi mesmo que indiretamente com você.

Fora isso ela curtia uma farra. Era independente sexualmente, financeiramente e afetivamente desde sempre, e olha que morreu aos 86 anos. Então imagine uma mulher que assumia o amor livre, sem amarras, não tinha medo dos rótulos que lhe davam e era dona de uma segurança invejável em plenos anos 1950.

Não se casou, não por falta de pedidos, o que não a impediu de ter uma família. Que, como tudo o que ela fez, foi resultado da sua escolha. Amou os homens que quis, mesmo que fossem casados. "Não tinha ciúmes das esposas", contava.

Sempre foi linda! Aos 22 anos, em 1958, abriu uma das edições mais importantes da Festa da Uva, em cima do capô do caminhão, com um vestido provocante e como ela mesmo dizendo: "queimando a bunda".

Mais velha, foi rainha da Banda da Ponte, lá pelos anos 1986, e até pouco tempo atrás mostrava as pernas de miss e as unhas vermelhas sempre bem feitas. Mas, o mais legal é que ela fazia tudo isso sem culpa. Dizia que nunca se sentiu usada, porque teve de seus amores o que quis e escolheu. Uma mulher que diz isso hoje é forte e moderna, imagine na metade do século passado. Em um tempo em que só os homens escolhiam, ela já assumia suas escolhas.

Sobre a dualidade entre espírito e matéria que vivemos e que só consigo enxergar hoje, ela deixou sua mensagem. Ao mesmo tempo que conseguia viver encarnada, aproveitar da vida, liberta da moralidade, tinha uma clareza espiritual leve. Em uma entrevista de 19 de agosto de 1982 para o saudoso Picoco Barbaro, neste mesmo Jornal de Jundiaí, ela dizia sobre seu falecido pai: "Sou espiritualista e para nós essa vida é passageira e não existe a morte. Portanto, meu pai continua vivo".

Pela genética ou pela epigenética, de certa forma ela tem razão: somos um composto de sucessão de genes, hábitos e comportamentos dos nossos ancestrais. Descobri no dia da sua morte, pedaços dela em mim, que nunca imaginei que pudessem ter vindo dali.

Tia Neyde, grata por ter capinado o caminho para que eu pudesse também sair de casa aos 14 anos, para que eu pudesse ter meus relacionamentos afetivos e sexuais com quem eu bem entendesse, sem culpa, para que eu pudesse trilhar meu caminho profissional livre, e acima de tudo para que eu pudesse escolher por mim mesma.

ELISA CARLOS. Em constante atualização, é empreendedora, engenheira, cozinheira, mãe Waldorf da Nina e da Gabi


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