Opinião

A namorada

Essas histórias de amor de novelas diferenciam-se da sua vida


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COLUNISTAS GUARACI ALVARENGA
Crédito: divulgação

Mulher inteligente e bonita. Toda juventude foi cercada de amigos e muitos galanteios. Nos estudos, a convicção de uma carreira brilhante. Como toda doce moça, aspirava aos encantos do amor. Haveria de encontrar com alguém, que pudesse compartilhar esta plena felicidade.

Estas histórias de amor, muito fáceis de encontrar em novelas e filmes, diferenciam-se em muito da realidade da sua vida. Ah! O trabalho, os estudos e todo este corre-corre no cotidiano vedava os seus olhos para outras coisas, mais agradáveis.

Não obstante, conheceu um jovem garboso, a quem se dedicou com toda força da alma. A paixão pelo jovem era agora toda a sua vida. A vida entre os dois, assim pedia. Pareciam que tinham nascido um para o outro. Um casal perfeito.

Com o passar de algum tempo, o fogo do amor do jovem enamorado começou a enfraquecer. Uma frágil chama tentou resistir, mas não foi suficiente. Iludido por perfumes sem essência, o homem deixou-se levar pelos aromas falsos da existência.

Sonhava a vida com novos amores. Encantava-se como uma iludida liberdade de ficar e deixar. Brincava com os sentimentos das pessoas. Por que se prender a um único amor? Sonhava com noites de verão. Afinal existem tantas mulheres no mundo.

Acreditava que sempre encontraria meios para curar qualquer dor ou esquecer o arrependimento de abandono a pessoa amada. Era jovem e não temia o destino de ficar solitário.

As lágrimas da companheira foram inevitáveis. Não poderia deixar de lado tudo àquilo que acreditava. Sacrificara sua vida, e agora sentia uma realidade que não nunca lhe tinha vivido em seu coração.

Compreendeu, entretanto, que teria que superar a complicada crise. Sentiu a mágoa que feria seu coração. Tudo fizera pelo amor. Como entender tanta ingratidão? Tinha abandonado muitos sonhos de uma juventude repleta de alegria e felicidade.

Por onde andariam seus amigos e suas amigas de então. Sentiu uma névoa úmida a cair em toda a sua alma. Mutilou sua voz de desespero, para não sofrer mais com a dor da separação.

O tempo transcorreu. À medida que os dias se passaram, não via outra saída senão o de se encontrar, em busca de um novo destino. Não se deixou abater. A cada dia que passava, cobrava de si mesma mais ação e energia. Logo, as luzes do seu talento foram de novo acesas.

Despiu-se, então, das vestes do passado. Não valeria guardá-las por coisas que, na verdade, nunca amou. Livrou-se da luxuosa moldura com a foto do casamento sobre a penteadeira. Encarou a vida, face a face, como deve ser enfrentada.

Voltou aos estudos e ao trabalho. Melhorou sua autoestima. Tornou-se uma nova mulher, mais madura, menos ingênua e mais bela. Não lhe faltaram os acenos de novas amizades, de novos amores. Compreendeu que o significado da vida é sua beleza de viver.

Dia destes, pensando em seduzir seus sentimentos, no Dia dos Namorados, o homem que ela amara lhe telefonou. Cansado e fatigado, por aventuras amorosas, marcadas pelo cinismo e interesses menores, deixou-se abater pela fraqueza do seu ser. Enfermo de tantos revezes, só agora compreendia que a cura dos seus males encontrava-se no feliz passado.

Ela, no entanto, percebeu que o havia esquecido. Nem se lembrara de sua voz. Sua lembrança fora sepultada há muito tempo. Como recomeçar um sentimento que se apagou em seu coração?

Nunca lhe quis mal, todavia não havia nada a ser recordado de um tempo esquecido por falsas tristezas. Declinou, com gentileza, do convite.

Ele, não entanto, insistiu. Tanto insistiu que se marcou um encontro. Esperançoso, reservou uma mesa no romântico restaurante que a conheceu. Queria seu perdão. Recordar de um passado que só foi seu. Queria tornar a viver com ela e voltar a ser feliz.

Ao entrar no romanesco restaurante, dirigiu-se à mesa reservada. Embaixo de um castiçal de prata, ornamentado com uma linda vela vermelha acesa, preso em uma de suas pontas, encontrou um pequeno bilhete, com os seguintes dizeres: "Voltaste tarde demais".

GUARACI ALVARENGA é advogado


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