Opinião

Somos iguais, mas diferentes

O sambista Branca di Neve cantava: "Você sabe a cor de Deus?


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ARTICULISTA EGINALDO ONÓRIO
Crédito: .

Será que é tão difícil pensar nisso?

Segundo o livro sagrado, fomos criados à imagem e semelhança do Criador.

Se assim o é, por que as pessoas são humilhadas, ignoradas, excluídas pela aparência, gênero, condição pessoal, etnia, religião e tudo o mais?

O saudoso sambista Branca di Neve cantava: "Você sabe a cor de Deus?/ Quem sabe não revela".

Neimar de Barros, que se intitulava ateu e ex-cristão, em seu clássico poema "Deus Negro" escancarou surpresa ímpar e em determinado trecho escreveu: "Deus não está vestido de ouro, mas como? Está num simples trono/ Simples como não fui humilde como não sou/ Deus decepção!/ Deus na cor que eu não queria. Deus cara a cara, face a face sem aquela imponente classe./ Deus simples! Deus negro!/ Deus negro e eu... Racista, egoísta. E agora?/ Na terra só persegui os pretos. Não aluguei casa, não apertei a mão./ Meu Deus você é negro, que desilusão./ Será que vai me dar uma morada? Será que vai apertar minha mão?/ Que nada! Meu Deus, você é negro, que decepção!/ Não dei emprego, virei o rosto./ E agora?".

Ateu ou não, o poema leva a todos e todas a reflexão: Quem sou? O que sou? De onde vim? Qual a minha missão ou função neste mundo? O que fiz ou posso fazer a meu igual?

Tal e qual exponho nesta coluna - apesar dos avanços -, lamentavelmente, as ofensas às pessoas negras se repetem, que vão desde as atrocidades praticadas na escravidão, passando pelo caso do menino que caiu do nono andar do prédio de luxo no Recife (PE) enquanto a mãe dele, atendendo a patroa, passeava com o cachorro, as balas perdidas no Rio de Janeiro, que sempre acertam pessoas negras, o caso Januário e o João Alberto, ambos espancados no supermercado, as juízas que, ao condenar bandidos, descaradamente fizeram alusão à etnia, pessoas sendo perseguidas em supermercados pelo simples fato de serem de pele escura, as abordagens policiais extremamente agressivas contra negros, em postura diametralmente oposta quando abordam pessoas de pele clara, entre tantos outros dados de conhecimento geral, alcançando, abusivamente, o tratamento de saúde diferenciado apenas pela cor da pele.

Por falar em saúde, ainda na semana que passou, um amigo ao passar por consulta médica sustentando que os medicamentos recomendados não surtem resultados positivos, a médica, sem titubeio, disse a ele para suspender toda a medicação e "parar de ingerir medicamento para branco". "Medicamento para branco?" Como assim?

Pode parecer estranho, mas já se comprovou que o medicamento indicado para pessoa branca, em alguns casos, não gera o mesmo efeito à pessoa negra, também confirmada pelo honorável médico (negro) José Roberto Ribeiro, especialista em ortopedia e medicina esportiva (Campinas), bem assim a monstruosa desigualdade de tratamento, apenas em razão da cor da pele.

Ainda no quesito saúde, são estarrecedores - porém verdadeiros - os dados confirmando violência obstétrica, dentre eles um estudo realizado pela Fiocruz, no acompanhamento de 23 mil mulheres para identificar a descabida desigualdade (https://www.uol.com.br/vivabem/reportagens-especiais/saude-da-populacao-negra/#page8), sendo comum que tal dado sequer passa pela mente dos não negros, até que se prove a fala, ante a resposta de que se tratava de "mimimi".

Em razão desses fatos, frise-se, de há muito presentes no sistema de saúde geral, o Ministério da Saúde criou a Política Nacional de Saúde Integral da População Negra (PNSIPN), por meio da Portaria GM/MS nº 992, de 13 de maio de 2009, que passou, inclusive, a indagar à classe: "Como você gostaria de ser atendido e tratado?". Que muitos/as, a partir de então, ocupando o lugar do paciente, modificaram substancialmente a conduta para melhor ou se afastando literalmente. É real!

Importante, também, neste quesito, não perder de vista o clássico comando do inciso I, dos Princípios Fundamentais do Código de Ética Médica, determinando que: "A medicina é uma profissão a serviço da saúde do ser humano e da coletividade e será exercida sem discriminação de nenhuma natureza".

Perfeita a indagação: "Como você gostaria de ser tratado".

EGINALDO HONÓRIO é advogado

 


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