Opinião

Na dúvida, ouça o presidente

Tomar vacinas é a melhor maneira de se proteger de doenças graves


ALEXANDRE MARTINS
FELIPE DOS SANTOS SCHADT ARTICULISTA
Crédito: ALEXANDRE MARTINS

Mais de um ano de pandemia com quarentenas intermináveis, abre e fecha, quatro ministros da saúde, primeira, segunda e terceira onda, e ainda há gente que não sabe o que fazer ou como atuar durante o período da maior crise da área da saúde que já vimos nas últimas décadas. Se você tem dúvidas sobre o que fazer, basta ouvir o presidente Jair Bolsonaro e fazer exatamente o contrário.

Na última semana, Bolsonaro se pronunciou referente ao uso das máscaras. Segundo ele, as máscaras só devem ser usadas por pessoas que estejam infectadas por covid-19, desobrigando os vacinados e aqueles que já contraíram a doença. Então, ouça o presidente e faça o contrário do que ele diz, pois segundo Maria van Kerkhove, líder técnica para a covid-19 da OMS (Organização Mundial de Saúde), a dispensa desses cuidados só pode acontecer quando não houver mais transmissão comunitária da doença. "A pandemia não terminou, há muita incerteza com as novas variantes e precisamos manter os cuidados básicos para salvar vidas".

Lembra quando o presidente falou lá em janeiro, ao lado do seu terceiro ministro da saúde que "Ninguém vai ser obrigado a tomar vacina. Não quer tomar, não tome, é um direito teu, afinal de contas é algo emergencial, não temos comprovação"? Mais uma vez, ouça o presidente e faça o contrário, já que a vacinação é a melhor resposta que temos para combater o vírus e, por se tratar de uma questão de saúde pública (não adiante ter poucas pessoas vacinadas se a maioria ainda está espalhando o vírus), todos devem se imunizar sim. Segundo a "PFAIZER" (Pfizer, ela mesma), "tomar vacinas é a melhor maneira de se proteger de uma variedade de doenças graves e de suas complicações, que podem até levar à morte."

E sobre aglomerar? Tem dúvidas se é certo fazer isso ou não? Oras… basta ouvir o presidente e fazer o contrário! Em maio deste ano, Jair Bolsonaro se reuniu com seus apoiadores no cercadinho do Palácio do Planalto e chamou de idiota quem fica em casa respeitando o distanciamento social. O desrespeito a essa medida de restrição foi uma das maiores responsáveis pelas intermináveis ondas que assolaram o Brasil dentro desse um ano de pandemia, totalmente ao contrário do que aconteceu em países que instituíram lockdowns para sua população, como por exemplo a Nova Zelândia que teve, desde o início da pandemia até hoje, apenas 26 mortes por covid-19, a última em fevereiro de 2021.

Ficar em casa é uma "idiotice" que vale a pena, pois evita-se o contágio e sem grandes taxas de contaminação, os hospitais não entram em colapso, como o que vem acontecendo em Bragança Paulista. Com 100% dos leitos de UTI ocupados, nesta segunda-feira (14) a cidade já pensa em um plano para resolver essa situação: fazer exatamente o contrário do que o presidente diz e voltar a adotar medidas restritivas.

Agora se você tem dúvidas sobre o tratamento precoce, o ideal é ouvir o presidente e aqueles que o apoiam, como no caso da médica Nise Yamaguchi, que foi sabatinada pela CPI da Covid recentemente e deu um verdadeiro show de incompetência ao tentar explicar, sem nenhum embasamento científico, a eficácia de remédios como a cloroquina. Ouça o presidente e seus apoiadores e faça o contrário do que eles dizem. Aliás, sabe quem são os únicos dois países da América Latina que ainda insistem nesse medicamento: Brasil e Venezuela.

Mas chega de falar de coronavírus. Vamos falar sobre eficiência no trabalho. Se um dia você receber e-mails importantes, digamos que 81 e-mails importantes, e não sabe se deve ou não respondê-los, veja o que o Bolsonaro fez. Segundo a CPI da Covid, ele ignorou 81 mensagens da "PFAIZER" (Pfizer, olha ela outra vez), o que poderia ter poupado ao menos 95 mil vidas, caso o governo tivesse aceito as ofertas iniciais do imunizante, segundo cálculos conservadores do epidemiologista Pedro Hallal, da Universidade Federal de Pelotas (RS). Então, recebeu aquele e-mail importante? Veja o que o presidente fez e faça justamente o contrário: Responda depressa.

Nunca foi tão fácil estar do lado certo da história.

Conhecimento é conquista!

FELIPE SCHADT é jornalista, professor e cientista da comunicação pela USP


Notícias relevantes: