Opinião

A cretinice assolou o país

Indivíduos estúpidos geram perdas para si mesmos e à sociedade


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HOMENAGEM DOUTOR JOSE RENATO NALINI NO FORUM
Crédito: divulgação

Não sou eu quem diz. É Gustavo Franco, presidente do Banco Central no governo FHC e um dos responsáveis pelo Plano Real. Ele escreveu o livro "Lições amargas" e o concebe como um longo artigo de jornal, que pode interessar a uma vasta gama de interessados.

Para isso, dispensa o economês e se utiliza de linguagem acessível a leigos. O ponto alto da obra é a discussão sobre a relação entre ciência e poder político. Procura explicar o que justifica a reação de governos populistas contrários à ciência e menciona episódios como a "revolta da vacina" no início do século XX.

Inspira-se no livro "As leis fundamentais da estupidez humana", de Carlo Cipolla (1922-2000) para tentar entender como é que pastas parcelas da população, inclusive os que se dizem escolarizados, se fanatizem a ponto de se recusarem a vacina, ao uso de máscara e ao distanciamento social.

Como se fala frequentemente em "novo normal", poder-se-ia também considerar a estupidez como o novo nome da loucura ou da insensatez. Para Gustavo Franco, assiste razão a Cipolla, quando afirma que os indivíduos estúpidos são aqueles que geram perdas para si mesmos e também para a sociedade. São, por isso, os mais perigosos pois erráticos e irracionais. É a postura daqueles que assinam um atestado de recusa à vacinação, como se isso configurasse mero exercício da autonomia individual. E os outros, que ficarão sujeitos a essa potencial fonte de transmissão da peste?

A leitura do livro de Gustavo Franco lembrou-me o FEBEAPÁ- o festival de besteiras que assola o país, do inesquecível Stanislaw Ponte Preta. Nítida a conotação com a praxe de se invocar o dogma da soberania estatal, tão próprio ao negacionismo. Para este, exterminar a Amazônia é direito nosso e ninguém tem nada com isso. Principalmente os países que já destruíram suas florestas em séculos passados e hoje são preservacionistas. Observar as orientações da OMS também se mostra incompatível com a gloriosa soberania nacional, que prefere receitar cloroquina e outros itens do tratamento precoce. Aliás, foi argumento ratificado por testemunha inquirida na CPI da Covid-19 ainda em curso.

A soberania, verbete recorrente no discurso oficial, parece estar servindo para que o Brasil persista na rota de fazer escolhas infelizes, pois bons exemplos não faltam em todos os hemisférios. Mas é preciso ter olhos para ver e vontade de enxergar.

Na entrevista concedida ao jornalista Eduardo Cucolo (FSP 22.05.2021), Gustavo Franco define seu livro como a reflexão de quem se cansou das frustrações dos últimos anos, embora acredite que o aprendizado com a pandemia possa acelerar mudanças que conduzam o Brasil a melhores práticas internacionais na área econômica.

Melhor seria que o economista contemplasse com carinho a adesão do Brasil ao conceito ESG. Impõe-se pensar, simultânea e coordenadamente em preservar o meio ambiente, equilibrar a precária situação social, com gradual eliminação da miséria e absorver as lições externas sobre governança corporativa, sobretudo para uso do Estado. O foco exclusivamente em economia não atende a todas as necessidades de um Brasil ainda muito injusto. Os economistas têm o dom de errarem bastante. Seus vaticínios raramente se confirmam. É uma ciência com sólidos fundamentos teóricos, mas quase nenhuma consequência prática.

Convém embarcar na onda que surgiu no Primeiro Mundo. O capital tem um faro para detectar boas pistas. Estas indicam a direção propícia a quem não enxergar apenas a obtenção de lucro, mas cuidar do ambiente, da pobreza e da melhor gestão dos recursos disponíveis.

As potencialidades dos biomas e da biodiversidade brasileira deveriam estimular o capital, seja ele na esfera macro, mas também no microcosmos dos pequenos empreendedores, a explorar esse patrimônio precioso, antes que políticas ecocidas acabem com ele.

Também é urgente reduzir as desigualdades sociais e exterminar a miséria, dever explicitado pelo constituinte em 1988 e a ser cumprido por todos os brasileiros. E exigir do governante sirva ao bem comum e não a egoísticos interesses eleiçoeiros. É pedir muito?

JOSÉ RENATO NALINI é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras - 2021-2022


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