Opinião

O fluxo energético e locais tóxicos

O importante é que o fluxo de energia siga sem se deter


ALEXANDRE MARTINS
ALEXANDRE MARTIN ARTICULISTA
Crédito: ALEXANDRE MARTINS

Recebi algumas perguntas sobre o feng shui, o sistema de harmonização de construções e ambientes que utiliza bases semelhantes às da Medicina Tradicional Chinesa, questionando sobre como ele surgiu e como ele se relaciona com a parte de saúde e prevenção.

As teorias que hoje fazem parte do modelo de funcionamento da Medicina Tradicional Chinesa têm origem muito antiga, vindas da cultura de povos que habitaram a região do extremo oriente há literalmente milhares de anos antes de Cristo. Muitas vezes o conhecimento nem era transmitido de forma escrita, mas de forma oral, de modo que é difícil precisar com segurança suas origens e o grau de influência que tiveram de outros povos.

Neste pensamento tradicional existe um modelo energético, onde fluxos que transitam em um plano invisível sustentam os fenômenos no plano visível. A interação dos dois planos é completa e é impossível separar um do outro. Assim, a mesma ideia que valia para a medicina valia para projetos arquitetônicos, desde a escolha de um terreno, a forma e orientação de uma casa ou qualquer outro edifício, como um palácio ou templo.

O que sempre se objetivou com esse tipo de estudo? O fluxo de energia preservado. Tal como um rio, as energias têm suas nascentes no alto de montanhas ou em grandes florestas e confluem em córregos, se aglutinando até formar o leito de rios, com grandes fluxos e seguem ao longo dos vales e montanhas, para terminar o seu caminho no oceano.

O importante é que, ora mais rápido, ora mais lento, o fluxo de energia siga sem se deter. Ele pode diminuir sua velocidade e interagir com o ambiente onde encontra resistência à sua passagem ou seguir rápido e íntegro onde o caminho se encontra mais livre, mas deve seguir sem parar até a conclusão da sua jornada.

Um dos padrões mais insalubres que pode surgir deste quadro é a estagnação de qi, ou seja, a energia estagnada. Portas e janelas permitem a circulação de energia e promovem um ambiente saudável, enquanto ambientes fechados, com muitos cantos favorecem a estagnação, armazenando inclusive elementos tóxicos nesse local.

A energia daqueles que habitam esses locais, ao longo do tempo, começa a ser contaminada com o acúmulo de energia e eles passam então a sentir desde uma sensação de opressão e desconforto articular até adoecerem mesmo, física e emocionalmente.

Imagine-se dentro de uma sala escura, com teto baixo e sem janelas, com uma única e apertada porta para entrar e sair e entenderá o que eu estou descrevendo. A energia se retrai e uma sensação de falta de ar é imediata, pois o medo que o ambiente transmite bloqueia o fluxo energético do pulmão.

Vale então a reflexão para nosso cotidiano: é óbvio a importância, especialmente em tempos de distanciamento social, do cuidado com nossas casas, que se tornaram mais que antes palcos da nossa vida. É desejável criar ambientes amplos e abertos, bem iluminados e limpos, principalmente nos cantos, pois nessas regiões é que se acumulam as energias e resíduos de estagnação potencialmente tóxicos para o campo energético de quem vive nelas.

Outro recurso é evitar sentimentos de desprezo, ódio e depressão, todos oriundos de processos emocionais que podem surgir devido ao convívio mais próximo entre familiares. Sei que não é simples pedir que evitem brigas e discussões, isso muitas vezes não é possível, pois entendo que quando as emoções surgem, elas não podem ser contidas, mas ao menos podem ser moduladas, como quando esperamos para responder em um momento em que o temperamento das emoções fortes tenha se reequilibrado.

Principalmente, evitar formar os sentimentos negativos que descrevi, advindos do remoer das emoções, como se a simples lembrança de ocorridos nos forçasse a reviver situações conflituosas várias e várias vezes.

Tal como no feng shui, as emoções podem ser tratadas como águas tempestuosas do rio que podem ser sentidas, mas sem muita interação com o ambiente que a cerca, deixando que elas passem sem estrago e sem deixar resíduos tóxicos para nossas casas e nossas vidas.

Um forte abraço e fiquem bem!

ALEXANDRE MARTIN é médico formado pela Unicamp e especialista em Acupuntura e Osteopatia


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