Opinião

Mensagem, de Fernando Pessoa

Quantas noivas ficaram por casar/Para que fosses nosso, ó mar


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COLUNISTA PROFESSOR FERNANDO BANDINI
Crédito: divulgação

Lançado no ano anterior à morte do poeta, "Mensagem" foi o único livro escrito em português publicado em vida por Fernando Pessoa (ele lançara antes um volume de poemas em inglês). O livro saiu em outubro de 1934 e a morte de Pessoa ocorreu em novembro de 1935, quando o poeta português contava 47 anos. "Mensagem" foi gestado ao longo de duas décadas, com interrupções e retomadas. Trata-se de uma "leitura poética" da História de Portugal. São 44 poemas, divididos em três partes: "Brasão", "Mar português" e "O Encoberto". Os versos falam de personagens da História portuguesa; tratam das grandes navegações - quando o país transformou-se num império - e desejam um futuro grandioso.

Assim como em "Os Lusíadas", a genial epopeia de Camões, em "Mensagem" Portugal é visto como "o" país, aquele cujo passado glorioso deve inspirar um futuro ainda mais espetacular. Pessoa trata Camões como referência a ser respeitada, mas também como modelo a ser superado (a modéstia raramente conviveu com o poeta contemporâneo). Ele dialoga com o vate renascentista em diversas passagens: o "Monstrengo" de "Mensagem" remete ao Adamastor de "Os Lusíadas", ambos representando obstáculos a serem vencidos pelos navegadores. A queixa camoniana da indiferença dos contemporâneos quanto à sua obra, no "Epílogo" do longo poema, ecoa na "Prece", que encerra a segunda parte do livro de Pessoa. Assim como o famoso "ó mar salgado, quanto de teu sal são lágrimas de Portugal", de "Mar português", retoma a passagem de "O Velho do Restelo", em que "a branca areia as lágrimas banhavam,/Que em multidão com elas se igualavam". Neste último, Camões sugere que os que se despediam da tripulação prestes a partir sofriam demasiado, temendo o destino incerto.

No de Pessoa, a conquista ultramarina foi "salgada" pelas lágrimas do sofrimento ("Por te cruzarmos quantas mães choraram,/Quantos filhos em vão rezaram,/Quantas noivas ficaram por casar/Para que fosses nosso, ó mar"). Nos dois casos, são muitos a padecer: há tantas lágrimas quanto grãos na areia. A sequência pessoana "viralizou": "Valeu a pena? Tudo vale a pena/Se a alma não é pequena". Essa grandiosidade perseguida desponta em outros versos de "Mensagem", como no poema ao rei Dom João II: "Braços cruzados, fita além do mar(...) o limite da terra a dominar/O mar que possa haver além da terra". Ou aquele ao infante Dom Henrique, entusiasta das navegações: "Deus quer, o homem sonha, a obra nasce. Deus quis que a terra fosse toda uma,/Que o mar unisse, já não separasse./(...)/E viu-se a terra inteira, de repente,/Surgir, redonda, do azul profundo". Terraplanistas estavam por fora já no tempo do príncipe português, no longínquo século 15. O fidalgo e seus navegadores sabiam que a Terra era uma bolota irregular e não uma chapa plana. Teriam muito a ensinar aos maluquetes de hoje.

Da coleção de preciosidades, destaco a dedicada ao rei D. Dinis. Como se sabe, o monarca compunha cantigas. Foi ele também que mandou plantar bosque de onde décadas depois sairia a madeira de navios a cruzar os mares. O rei não viu os resultados da plantação. Pessoa anota: "Na noite escreve um seu Cantar de Amigo/O plantador de naus a haver,/E ouve um silêncio múrmuro consigo: /É o rumor dos pinhais que, como um trigo/de Império, ondulam sem se poder se ver./Arroio, esse cantar, jovem e puro,/Busca o oceano por achar;/E a fala dos pinhais, marulho obscuro,/É o som presente desse mar futuro/É a voz da terra ansiando pelo mar". O rei - esse "plantador de navios" ainda inexistentes - não poderia prever o acerto e a importância de sua iniciativa.

"Mensagem" louva a ousadia como a melhor resposta humana para a própria transitoriedade e desimportância. O homem existe se e quando sonha. Mesmo que tal sonho beire a loucura, como o do rei Dom Sebastião, morto ao combater no território do inimigo: "Louco, sim, louco, porque quis grandeza/ Qual a sorte a não dá (...) Sem a loucura que é o homem/Mais que a besta sadia,/Cadáver adiado que procria?".

Vale a pena navegar pelos versos de Fernando Pessoa. Pronto para embarcar, leitor?

FERNANDO BANDINI é professor de Literatura do Ensino Médio


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