Opinião

Sobrevivendo aos lutos

Nossa negação fala muito mais sobre nós mesmos do que gostaríamos


ALEXANDRE MARTINS
ANA FOSSEN_ARTICULISTA
Crédito: ALEXANDRE MARTINS

Minhas palavras hoje se dirigem a todos, sem exceção, pois todos já perdemos, de alguma forma, alguém ou alguma coisa nesta vida. Neste sentido, não há escapatórias, todos perdem algo ou alguém e, com isso, não deixo de levar em consideração que nossa sociedade faz alguns perderem mais que outros.

Os últimos tempos nos trouxeram muitos lutos, perdemos a liberdade de ir e vir, os encontros com os amigos, pessoas queridas, viagens, dinheiro, saúde mental e mais uma infinidade de situações às quais estávamos acostumados e até enjoados.

A perda gera o luto. Luto é uma palavra pesada, fúnebre, difícil de ser pronunciada, negada de muitas formas para que ela não traga para perto de nossas emoções o vazio, a decepção, a tristeza, a finitude e a angústia.

Sem embargo, o que de fato significam essas perdas? Por que algumas pessoas as negam?

Toda perda inclui uma falta, toda falta envolve uma ausência, todo luto fala de um investimento afetivo que foi feito na vida e que se esvaiu. Investimos algo de nosso ser no amor, na carreira, nos nossos corpos, na saúde, no funcionamento geral da sociedade. Todo luto é luta para manter um desejo aceso e consistente. Um desejo de que siga havendo algo de vida ao nosso redor. Assim, concluímos que nosso eu se perde naquilo que desaparece e o luto se instala na tentativa de realizar um trabalho de recuperação desta ideia de eu. A isto chamamos "refazer a vida".

É desta parte, perdida do eu, que vem o processo de negação, porque em muitas das situações fomos nós mesmos que provocamos a perda, em outros momentos, aqueles nos quais não temos controle algum, somos tomados pela sensação de angústia e desespero, mas ainda assim, algo se vai. Por isso, o luto não se aplica somente à morte dos entes queridos, o luto é um trabalho constante de suportar uma regra estrutural da vida que é a falta, a impermanência ou como queiramos chamar essa impossível constância na passagem dos dias. Costumo dizer que a negação é a regra número UM do jogo do "ganha-ganha" tão almejado pelas mentes mais alienadas ou perversas da atualidade. Se eu nego, posso ganhar sempre? Evito perder o que me parece ser crucial? Ledo engano.

A negação nos impede de enfrentar a realidade, mesmo que seja a que criamos imaginariamente e nos auxilia a mobiliar o que o psicanalista Jung chamou de Sombra. Aquele cantinho do inconsciente onde guardamos o que não queremos reconhecer como nosso, um quarto escuro, um sótão onde habitam nossas piores fantasias. E quando digo piores, falo do sadismo, do ódio, do preconceito e do egoísmo.

Portanto, quando negamos a morte, seja duvidando dos números da pandemia, aglomerando, não se vacinando, evitando o contato com as notícias, não conversando com amigos cujas ideias são contrárias as nossas estamos usando, se assim se pode afirmar, a nossa Sombra. Nossa negação fala muito mais sobre nós mesmos do que gostaríamos e dificulta, ao contrário do que se pode pensar, todo o processo de reconstrução da vida. Depois de um ano e tanto de perdas e lutos foi impossível não ver descortinados nossos mais sombrios impulsos. Não obstante, talvez nem tudo esteja de fato perdido, afinal, toda Sombra pode se fazer Luz, toda morte, decepção ou fracasso podem ser superados com mais ou menos trabalho.

A pandemia vai acabar, as vacinas serão aplicadas, alguma liberdade será restabelecida e as ausências dos entes queridos serão elaboradas no cotidiano de suas ausências e na interrupção das histórias que poderiam ser contadas.

Porém, do sótão, ainda que bem trancado, soarão as perguntas: Quem foi você neste processo todo? Como você pôde conduzir seus atos? Como pretende reconstruir o que sobrou?

ANA CLÁUDIA FOSSEN é psicóloga e psicanalista, graduada em Psicologia pela USP e pós-graduada em Psicologia e Filosofia pela Universidade Complutense de Madri-Espanha


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