Opinião

Sabedoria de avó

A energia Fria adentra, de fato, pela pele, atingindo os meridianos


ALEXANDRE MARTINS
ALEXANDRE MARTIN ARTICULISTA
Crédito: ALEXANDRE MARTINS

Venho nesta coluna falar muito sobre longevidade e técnicas que retardam o envelhecimento, que acabam sendo, ao final das contas, um dos objetivos de se seguir os preceitos da medicina tradicional chinesa, filosoficamente a origem das técnicas modernas de acupuntura e fitoterapia.

Quando se propõe a falar desse assunto é comum nos depararmos com artigos de cientistas e tecnologias das mais atuais e modernas, o que é bem compreensível, pois envelhecimento é algo que acontece, nos primeiros estágios, dentro das células, na intimidade do núcleo, junto ao material genético, como se fosse o segredo mais bem guardado da Vida.

No entanto, vemos que muitos dos aprendizados que obtemos dessas pesquisas acabam por validar conselhos e hábitos que já tivemos contato há muitos anos, advindo dos nossos antepassados e que chegam ao nosso conhecimento através de conselhos típicos de serem recebidos dos nossos avós (que por sua vez receberam os mesmos conselhos dos deles, assim sucessivamente), de forma informal e oral, dentro das famílias.

O tempo frio me lembra muito prontamente que não devo andar descalço, com o som da voz da minha avó ecoando na minha cabeça (reforçado pela autoridade da minha mãe) pois senão a friagem poderia irremediavelmente entrar no meu corpo pela pele dos meus pés (ou algo assim, conforme minha mente infantil de outrora me permitiu captar).

Nenhuma das duas eram médicas, nem versadas em medicina oriental, mas dentro desse campo sabemos que o Frio é considerado uma das energias perversas, ou seja, pelo seu potencial de consumir o calor pode deprimir o metabolismo e afetar o seu bom funcionamento. O Chinês antigo, que prezava pela saúde e a própria longevidade, se preveniu da exposição do frio muito mais do que vemos hoje, no moderno oriente e na maioria do ocidente.

Sabe-se que a energia Fria adentra, de fato, pela pele, atingindo os meridianos mais superficiais e progredindo, se assim o corpo permitir, aos mais profundos e neste caso, interferindo no metabolismo de órgãos como baço, coração e rins que não são simpáticos ao Frio. Para impedir esse avanço a defesa do organismo é fazer uso do próprio calor, gerado através do gasto energético, aplicado na contração de músculos, na tensão de tendões e na constrição de vasos.

É dito então que o Frio superficial irá gerar o Frio interior, pois consome o calor próprio do organismo através da periferia. Esse processo tem suas consequências, desde as mais imediatas e simples de serem observadas, como são os efeitos da desnutrição sanguínea dos tecidos periféricos, consequência do efeito do frio nos vasos sanguíneos.

Quem tem algum problema de artrose ou degeneração equivalente nas extremidades do corpo, como mãos, pés ou joelhos, sabe o quanto os sintomas pioram com o clima frio.

As consequências não param por aí, se a exposição continuar. O próprio calor interior, o que na medicina chinesa chamamos de Fogo Essencial, será consumido e por isso a capacidade do indivíduo aumentar o seu metabolismo fica comprometida.

Este fogo, cujo início está nos pontos na base da nossa coluna vertebral e por ela acende até o alto da nossa cabeça, muito similar a energia kundalini descrita na tradição indiana, é fonte da faísca iniciadora, calor essencial do ser vivo e o seu comprometimento abrevia a capacidade de resposta a doenças mais graves e abrevia a vida.

Muito sábio então, para o menino de outrora, "por uma meia nesse pé descalço agora!" interpondo assim mais uma barreira entre a pele e o temido Frio, para que o calor próprio não se desgaste.

Alimentos cozidos, como sopas e legumes não são só apreciados nesse clima frio de inverno (a estação do ano onde o Frio predomina) porque são gostosos, mas também aquecem devido ao seu preparo (no fogo), aumentando o nosso calor e prevenindo o uso de calor essencial para aquecer a periferia.

São alimentos de fácil digestão, poupando assim o calor de aquecer excessivamente o tubo digestivo para obter o que há de melhor nos alimentos.

Vejam, amigos(as) leitores, que nas simples coisas do dia a dia, temos a sabedoria que necessitamos para chegar aos nossos objetivos. Vamos ouvir nossas avós?

Forte abraço e fiquem aquecidos!

ALEXANDRE MARTIN é médico formado pela Unicamp e especialista em Acupuntura e Osteopatia


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