Opinião

"O apocalipse dos trabalhadores"

Quitéria e Maria da Graça recebem para chorar dores alheias


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COLUNISTA PROFESSOR FERNANDO BANDINI
Crédito: divulgação

Na cidade de Bragança, em Portugal, convivem duas faxineiras, Maria da Graça e Quitéria. Além de empregadas domésticas ("mulher-a-dias", como se diz em Portugal), engrossam o parco orçamento com o ofício de chorar em funerais - são carpideiras. Ambas mantêm um desejo intenso, carregado de culpas e medos. Quitéria envolve-se com o imigrante ucraniano Andriy, e Maria das Graças, com seu patrão, o senhor Ferreira. Dessa reunião nasce um romance original e poético, "O apocalipse dos trabalhadores", do escritor português Valter Hugo Mãe. Em uma vida na qual as perspectivas são miúdas, de horizontes estreitos, as duas mulheres debatem-se com questões existenciais. Nada do texto de Valter Hugo soa artificial ou pedante. Pelo contrário. O lirismo e a beleza de sua escrita transparecem nos diálogos, nos pensamentos dos personagens, nas intervenções do narrador.

A relação entre Quitéria e Andriy, nascida do desejo e que poderia ficar em sexo ocasional, revela-se mais intensa, carregada de afeição mútua. Longe de casa e da sua língua, o imigrante pensa nos pais. E a história desse casal de ucranianos apartados do filho único corre paralela. O pai de Andriy sofre com surtos psicóticos oriundos de conflitos em seu país. Sua mãe preocupa-se com o marido doente e o filho distante. Andriy, em Portugal, divide um apê minúsculo com outros trabalhadores estrangeiros, todos sonhando com alguma melhora na vida e o possível retorno à terra natal. Mas o dia a dia na nova terra não é nada fácil. A começar pela língua que não dominam, de sonoridade indecifrável.

No outro polo da narrativa, o leitor segue a história de Maria da Graça. Casada, ela convive poucos meses no ano com o marido, Augusto, marinheiro de companhia mercante, a maior parte do tempo longe de casa navegando. Quando retorna, Augusto pouco acrescenta ao cotidiano do casal sem filhos, além de reclamações a respeito do imóvel velho que ocupam e da comida preparada pela mulher. Augusto desconsidera a esposa, a quem dá nenhuma importância. Mas vai se surpreender. Na relação com Ferreira, Maria da Graça sente culpa. E vai se espantar com decisões tomadas pelo patrão culto e rude, em cuja casa espaçosa trabalha ao longo da semana.

Quitéria e Maria da Graça recebem para chorar dores alheias, em funerais de gente que não conhecem. Mas convivem com suas próprias aflições e delas devem se ocupar. A narrativa de Valter Hugo recria esse mundo conflituoso - de gente desterrada, apequenada pelo cotidiano, de gente para quem a vida não dá sossego, mas que segue adiante.

Nascido em Saurimo, Angola, em 1971, Valter Hugo Mãe vive desde os cinco anos de idade em Portugal. Escritor, desenhista, também é letrista e vocalista de uma banda de música pop. Cofundador de editoras, publicou em Portugal os brasileiros Ferreira Gullar, Manoel de Barros e Caetano Veloso. Formado em Direito, enveredou pela Literatura. Estreou em 1996, com o livro de poemas "Silencioso corpo de fuga". Em prosa, sua estreia data de 2004, com o romance "O nosso reino". Publicou, dentre outros, os romances "O remorso de Baltazar Serapião", "A máquina de fazer espanhóis" e "O filho de mil homens". Sua obra poética foi reunida no volume "Contabilidade", de 2010. Escreveu ainda os infantojuvenis "Os quatro tesouros" e "A verdadeira história dos pássaros".

Numa entrevista, a respeito da arte e de sua própria obra, o autor ponderou: "Acho que a arte tem de conter uma utopia. Nem todos os artistas hão de ser assim. Muitos são só gente desencantada, que parece querer magoar o mundo porque foi magoado. Vejo a arte como uma esperança, uma utopia de salvar e redimir tudo, e me interessa muito que aquilo que eu faço possa ter um valor para alguém. Sei que não vou salvar o mundo, mas há qualquer coisa que pode vir de uma contribuição de cada um de nós, e, por isso, sim, acho e quero muito que a arte salve o mundo". Agradeço ao professor e amigo Fernando Fefo a dica a respeito de Valter Hugo. Da primeira leitura, do "Apocalipse...", espero correr por muitas outras páginas desse talentoso e surpreendente escritor.

FERNANDO BANDINI é professor de Literatura do Ensino Médio


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