Opinião

Manter acesa a chama

O que foi 32? Foi a soma dos sonhos e o sacrifício de um povo


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HOMENAGEM DOUTOR JOSE RENATO NALINI NO FORUM
Crédito: divulgação

Quando criança, além das datas comemorativas da Independência e da Proclamação da República, havia empenho na celebração do 9 de julho. A Revolução Constitucionalista de 1932 foi um dos episódios mais significativos da história de São Paulo e do Brasil.

Compreende-se que o entusiasmo dos partícipes dessa epopeia, quando ainda vivos, conferia nítido fervor à festividade memorial. Assim que eles foram partindo, o dinamismo perdeu força. Mas é necessário que os patriotas não deixem desaparecer essa data do nosso calendário.

Principalmente neste ano que antecede o 90º do movimento armado e fratricida que São Paulo iniciou, unicamente para redemocratizar o Brasil. Em 2022 haverá eleições e o clima pregoeiro do autoritarismo, desgraça que os nacionais acreditavam ter sido definitivamente removida do cenário, teima em ameaçar a frágil democracia tupiniquim.

É urgente lembrar aos jovens que São Paulo teve brio e coragem ao se sublevar ao ditador. Talvez seja o momento de recordar e agradecer aqueles que ofereceram sua vida em holocausto aos valores que estavam sendo desonrados pelo chefe do governo autoritário e reafirmar que sua morte não foi em vão.

Também é hora de reverenciar personagens que não envergonharam a Pátria Paulista, como Pedro Manuel de Toledo (1860-1935). Jundiaí tem obrigação de render culto cívico ao nome honrado que tomou emprestado para denominar a sua principal praça pública, aquela defronte à velha Matriz, hoje Catedral de Nossa Senhora do Desterro.

Homem discreto, comedido, portou-se com serena coragem de estadista. Advogado, jornalista, parlamentar, escritor, ministro, diplomata e interventor em São Paulo, sempre deu exemplo de caráter. Era deputado estadual e rompeu com o presidente da República, por entender que ele havia se "esquecido da posição elevada em que se acha colocado e descendo a intrometer-se na política, fazendo mesas de Câmaras e intervindo na intimidade dos partidos".

Proclamava, destemidamente, ser necessário "mas justiça aos que hoje espiam o crime de haverem defendido as instituições do país; basta de reações e de terror. A nação precisa de paz e de tranquilidade, para quê, dentro em pouco, possa o povo brasileiro pedir às urnas - (e que sejam eletrônicas, acréscimo que hora faço) - livres a opinião sobre quem está com o direito, sobre quem está com a razão".

Pedro de Toledo entendia que o presidente Hermes da Fonseca abandonara o seu programa, "faltando à fé da sua palavra comprometida em documento oficial". Foi embaixador brasileiro em Buenos Aires e, por haver prestado apoio aos refugiados da Revolução de 1934, foi colocado em disponibilidade. Sua aura de respeitabilidade perdurou e foi o motivo pelo qual o ditador Getúlio Vargas o escolhesse para ser interventor em São Paulo. Nomeado a contragosto, unificou sua terra, não em torno da ditadura, mas para São Paulo mesmo, sua gente e seus valores.

O Brasil passa por momentos delicados. É preciso ter presente o heroísmo de paulistas como Martins Fontes, que abominava a ditadura, termo que, em suas palavras "afronta, avilta, injuria como um rebenque suspenso. Perante a consciência universal, na torrente libertadora dos nossos dias, quem, monstruosamente, horrendamente procura perpetuar-se num cargo, contra a vontade dos seus concidadãos, só merece a repulsa dos criminosos".

Último Príncipe dos Poetas Brasileiros, Paulo Bomfim, que perdemos há dois anos, deixou páginas brilhantes sobre 32: "O que foi 32? foi a soma dos sonhos e o sacrifício de um povo, a confraternização de raças e condições sociais no batismo das trincheiras, o esforço da indústria, o desprendimento do comércio, a grandeza de uma causa, a generosidade dos moços, a participação dos cabelos brancos, o entusiasmo das crianças, a força que vem da mulher Paulista, o verbo dos poetas e dos tribunos, dos jornalistas e dos sacerdotes, a sacralidade da lei, o fuzil ao lado do livro, a trincheira continuação da escola, a caserna dependência do lar e o campo de batalha sementeira da justiça".

Que tudo isso encontre eco na alma dos brasileiros realmente democratas. O amor pela liberdade não admite retrocessos nem titubeios.

JOSÉ RENATO NALINI é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras - gestão- 2021-2022


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