Opinião

O lugar da mulher no cinema clássico

Não deveria se dedicar apenas a cozinhar e lavar roupa?


ALEXANDRE MARTINS
ARTICULISTA RAFAEL AMARAL'''''
Crédito: ALEXANDRE MARTINS

Assisti a "Uma Cidade que Surge" enquanto me recuperava dos estragos da covid-19, no mês passado. É um faroeste de 1939, o grande ano do cinema americano, e conta com o famoso casal Errol Flynn e Olivia de Havilland. Ambos nas posições esperadas: ele como o herói acima de qualquer suspeita, bigodinho fino, um pouco canastrão; ela como a dama perfeita, educada e, como diziam antigamente, "mulher para casar".

A certa altura do belo clássico, a moça começa a trabalhar em um jornal da pequena cidade em que vive. Ao vê-la em pleno ofício, escrevendo, o herói não compreende: não deveria ela, uma mulher, estar em casa? Não deveria se dedicar apenas a cozinhar e lavar roupa? A personagem feminina - longe demais da libertária ou feminista - não concorda com o homem simpático ao lado.

A abordagem traz questionamentos. Sem endossar por completo o movimento da mulher para se ver livre de seus papéis tradicionais, o filme não evita defendê-la. No fim, sabemos, ela terminará nos braços do mesmo homem que questionou sua posição nessa sociedade em formação, entre cavalos, armas, saloons, bares e poeira.

No faroeste, o gênero americano por excelência, a mulher precisava de pequenas brechas para expor força e protagonismo. Não só: as personagens femininas mais fortes do cinema clássico tinham de servir quase sempre a estereótipos, como a da secretária e assistente esperta nas obras de Frank Capra, ou a das enérgicas com bom coração, como Bette Davis em "Jezebel" e, claro, Vivien Leigh em "O Vento Levou".

Na década de 1940, com o cinema noir, surge a dama fatal. Os homens estavam ocupados com a guerra. As mulheres ficaram em casa e, no peso dado às suas aparições na tela, não avançaram sem pagar algum preço: eram verdadeiras vilãs que pisoteavam os amantes. Ninguém incorporou melhor o papel que Barbara Stanwyck em "Pacto de Sangue".

Os anos 1950 representaram uma mudança significativa: fora dos Estados Unidos a mulher libertava seu corpo, na contramão da censura. Harriet Andersson em "Mônica e o Desejo", Brigitte Bardot em "E Deus Criou a Mulher" e Jeanne Moreau em "Os Amantes" marcaram época e mudaram definitivamente a imagem da mulher no cinema.

Pouco antes de dirigir "Juventude Transviada", Nicholas Ray fez um grande faroeste protagonizado por uma mulher, mas, ironicamente, com um personagem masculino no título, "Johnny Guitar". Depois de passar um tempo fora, o homem de Sterling Hayden retorna ao bar/cassino de sua amada, Vienna, interpretada por Joan Crawford. Ela põe-se no alto da escadaria de seu templo, manda e humilha, usa roupas de caubói.

Nada se compara à imagem de Crawford dentro de um gênero sempre associado à figura do macho, terreno de John Wayne e Randolph Scott. O papel da vilã também cabe a uma mulher: de olhos flamejantes, a Emma de Mercedes McCambridge quer matar Vienna. Percebemos entre ambas um estranho desejo represado, o que não podia ficar explícito na Hollywood ainda sob as amarras do Código de Produção.

A mulher em um mundo de homens tinha de lutar. Sempre lembro da bela Maureen O'Hara, especialmente em "Depois do Vendaval". Na Irlanda em questão, ela é puxada pelos cabelos pelo protagonista, um John Wayne apaixonado. A ação dos homens brutos não retira sua força. A grande ruiva deixa-se conquistar sem se rebaixar à autoridade do irmão bronco ou do novo companheiro recém-chegado, por quem se apaixona.

Aos mais jovens e à bancada feminista, sem dúvida parecerá atrasada e submissa. Penso nas imagens de O'Hara, na sua presença, na sua maneira de comunicar força e se impor nesse meio que, sabemos, reproduz lugares e época distantes. E constato que o cinema atual não conseguiu dar a luz mulher com peso semelhante.

Mais tarde, em 1995, algum produtor teve a ideia de colocar Sharon Stone em roupas de caubói. Deu a ela algumas armas e, com elenco famoso, produziu o divertido pastiche "Rápida e Mortal". Comparada a outras damas do faroeste citadas neste texto, Stone é apenas uma figura sem alma e graça, puro estereótipo do pistoleiro americano.

RAFAEL AMARAL é crítico de cinema e jornalista; escreve em palavrasdecinema.com


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