Opinião

Alimentar-se bem é uma responsabilidade

Agrotóxicos estão ligados a mais de 70 tipos de doenças e mataram 1,2 mi


ALEXANDRE MARTINS
ARTICULISTA ELISA CARLOS
Crédito: ALEXANDRE MARTINS

No início do ano passado, a minha família passava por um problema de depressão sistêmico. Bastava um ficar mal que a família toda caía junto. Tentamos vários tratamentos, até conhecer a desintoxicação sugerida pelo Dr. Roberto Mangieri Jr, aqui de Jundiaí. (Não deixo de me encantar com tanto jundiaiense interessante, o Roberto é um desses). Durante 21 dias retiramos o glúten, lactose, transgênicos, industrializados em geral, amendoim, soja e solanáceas, reduzimos os carboidratos e só consumimos arroz, verduras e folhas se fossem orgânicos. E nunca mais voltamos à comida "normal".

Eu passei pelo menos quatro horas diárias na cozinha por pelo menos nove meses, buscando receitas e fornecedores, fazendo cursos e testando novos ingredientes, tentando compreender como viabilizar uma dieta que a princípio me parecia tão restritiva. Pois a surpresa foi gigante. Quanto mais estudava, mais clara ficava a nossa responsabilidade quanto às escolhas alimentares diárias e quão diversa e saborosa pode ser uma alimentação natural, coerente. Quando se trata de nos alimentar, nadamos em mitos.

Desde 1960, com a modernização agrícola, a industrialização invadiu o campo, com a desculpa de que ao aumentarmos a quantidade de quilos produzidos por hectares acabaríamos com a fome mundial. Mais de 60 anos se passaram e a fome do mundo continua gritante. Em compensação, ganhamos um desequilíbrio climático, um solo cada vez mais empobrecido, contaminação por mais de 550 mil toneladas de agrotóxicos (só no Brasil), redução drástica da biodiversidade. Hoje a nossa comida é tão embalada que as crianças não reconhecem mais os frescos. Temos 300 mil plantas comestíveis no mundo, dessas a gente só come 200. E mesmo assim, nossa base alimentar industrial é feita de milho, trigo, soja. Todos transgênicos.

Segundo Larissa Lombardi (geógrafa e doutora pela USP, jurada de morte tantas vezes que precisou sair fugida do Brasil), uma criança com 20kg que coma diariamente: 200g de feijão, 200g de arroz, 100g de milho, tomate, brócolis, pepino e maçã, extrapola o que poderia tolerar de malationa (agrotóxico permitido em quantidade 400x maior que na União Europeia). Os agrotóxicos estão ligados a mais de 70 tipos de doenças e já mataram mais de 1,2 milhão de pessoas por intoxicação direta.

E para garantir um tempo maior de prateleira dessa "comida fresca" tóxica, enchemos os produtos de aditivos petroquímicos - são mais de 80 mil ingredientes artificiais adicionados aos produtos alimentícios desde a segunda guerra mundial. Inserimos ainda mais açúcares refinados, gorduras saturadas e sódio, itens sabidamente viciantes, altamente danosos e muito pouco nutritivos. Os alimentos duram cada vez mais, engordam cada vez mais e nutrem cada vez menos. Com esse novo tipo de alimentação surgiu um novo grupo de doenças chamado NCD (Non Communicable Diseases), que são responsáveis por 70% das mortes do mundo.

Eu ouvi alguns economistas alegarem que a industrialização alimentícia foi importante para gerar empregos e viabilizar a entrada das mulheres no mercado. E que portanto seria inclusivo disponibilizar "comida" cada vez mais barata. Passaram-se os mesmos 60 anos e as mulheres continuam sobrecarregadas. De fato algumas de nós não precisamos mais lavar as roupas de nossos maridos e muitos filhos no tanque, ou fazer a massa do macarrão do domingo, mas as lasanhas de micro-ondas não nos tiraram as sobrecargas, já que somos, no Brasil, na grande maioria dos lares, as responsáveis sozinhas pelo sustento da família, pela educação dos filhos. Por trás de "alimentos baratos", existe uma externalidade negativa pesada para o sistema de saúde. Um relatório da ONU mostrou que, nos próximos 20 anos, as doenças NCDs custarão $30 trilhões, representando 48% do PIB mundial.

Por mais descascar e menos desembalar! São as nossas escolhas alimentares que definem nossa saúde, a saúde do planeta e o rumo da economia.

ELISA CARLOS é engenheira agrônoma, especialista em inovação, mãe da Nina, da Gabi e da Grão da Vida.


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