Opinião

Corpos barrados

Por que os estudantes se autobarraram no momento de ir ao Baile do ENEM?


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MARGARETE ARILHA NOVA
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Quando você me deixou meu bem, me disse para ser feliz e passar bem.. quase enlouqueci, mas depois, como era de costume, obedeci... Assim é a vida, de certa maneira: o que se pode fazer diante das leis da vida? Vida e morte agora mais do que nunca se confundem diante de nossos olhos, e nossos corpos se expressam, de certa forma, barrados por nós mesmos. Ganham um espaço dentro de cada um, que talvez antes fosse inimaginável. Mas, entender isso não é banal, não é simples, é quase surpreendente. Por que os estudantes se autobarraram no momento de ir ao Baile do ENEM?

Corpos barrados, em muitos sentidos, é o que a pandemia nos ofertou, de uma maneira ou de outra. Isolamentos e distanciamentos sociais é o que se têm apresentado a nós já há cerca de um ano e meio. Nada a fazer, mas o que isso terá gerado em nossas vidas, em nossas relações, em nossos afetos, em nossas famílias? E em nós mesmos? Nem estou me referindo especificamente às dores das perdas e dos lutos sentidos, mas especificamente a como cada um recebeu a informação, e a aplicou, foi enormemente variada. Essa evidência pode ser aplicável a qualquer outra situação de vida, na medida em que cada sujeito introjeta as informações e as faz passar em sua própria linguagem, à sua própria estrutura psíquica e a ela responde.

No campo das aprendizagens e do ensino, muito embora não seja uma especialista do campo da educação, me surpreendeu enormemente a impactante diminuição de inscrições de jovens ao ENEM. Não seria de se pensar que os jovens poderiam ter aproveitado a reclusão quase que obrigatória para tentar ter mais produção em ano de pandemia? No entanto, evidentemente há dificuldades de toda ordem. Acostumada a lidar com sintomas sociais, como é o caso das experiências de tentativas de suicídio , automutilações e de suicídios propriamente, não resta dúvida de que os corpos barrados ao baile do vestibular merecem atenção. Os jovens estariam com medo? Os jovens estariam apontando para a pouca crença de que poderão seguir uma carreira de graduação acadêmica? Os jovens estarão assimilando, de certa forma, a feroz destruição do que significa a educação e a ciência no país? Receiam o mercado de trabalho? Pensam numa ausência de futuros?

Corpos barrados, sujeitos barrados no campo da educação, da saúde, da sexualidade, das opções reprodutivas, das vidas futuras. De toda maneira, é preciso seguir vivendo e compete ao Estado em suas esferas locais animar e criar alternativas de amparo e alento para todas as gerações. No campo da educação certamente, são inúmeras as razões que trouxeram a Educação aos resultados precários que se repetem há muitos anos. Mas qual o problema maior? Temos realmente no país um projeto coerente, fundamentado, lógico e sensato para enfrentar as dificuldades da educação escolar, especialmente nos tempos pandêmicos, e ofertar alguma condição de futuro para os jovens, mesmo considerando o enorme vazio que se apresenta neste momento? Especialmente nós, brasileiros, que neste momento, no plano internacional, somos considerados como o anti-exemplo em vários campos do conhecimento e das políticas públicas?

Da mesma maneira, no campo da Saúde Pública, como poderia, o Ministério da Saúde questionar o papel do Estado na defesa e promoção de políticas públicas destinadas a contemplar a saúde de todos os cidadãos, independentemente de idade, sexo, orientação sexual, no campo da saúde sexual e reprodutiva? Durante mais de três décadas, o país vem discutindo como ampliar a qualidade das áreas de educação e saúde no país, o que não quer dizer que tenha conseguido solucionar todos os impasses que ao logo do tempo se apresentaram. Por exemplo, na área de saúde das mulheres, para todas as etapas de suas vidas, um aspecto central foi incrementar a qualidade do pré-natal, reduzir os níveis da mortalidade materna, ampliar o acesso aos contraceptivos, garantindo informação e resolução de demandas, inclusive entre adolescentes, mas muitas questões restam sem resolução, por exemplo, o racismo institucional que dificulta a igualdade na qualidade do atendimento para todos os usuários dos sistemas públicos.

Caberá aos municípios, com serenidade e a partir de sua autonomia administrativa, preservar os avanços conquistados em várias áreas neste país.

MARGARETH ARILHA é psicanalista e pesquisadora do Nepo (Núcleo de Estudos em População Elza Berquo), da Unicamp


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