Opinião

Novos tempos, condutas antigas

O distanciamento da diversidade provoca danos de irreparável monta


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ARTICULISTA EGINALDO ONÓRIO
Crédito: .

Mudanças importantes no conviver de alta relevância obrigando-nos ao policiamento ostensivo em sentido amplo, em especial no trato com as pessoas.

Em nome da mais cristalina verdade, ainda que muitas pessoas - aparentemente - não se importavam, tinham seu curso normal, tais como: programas humorísticos com pessoas com deficiência física, orientação sexual, etnia, idade entre outros, despontando manifestações aqui e ali, dizendo que as coisas estão chatas, porque antigamente, se dirigiam as pessoas por "magrelo", "negão", "gordo", "foguinho", "quatro olhos"; "tição", etc e etc e hoje não é "politicamente correto"!

Não sou dono da verdade, mas posso afirmar que nunca gostei desse tipo de conduta ou apelidamento, especialmente quando a alusão me atingia diretamente. Exemplo: quando pré-adolescente odiava quando me chamavam de "pelé", "tição", "fundo de panela", que, a princípio era mera brincadeira sem caráter pejorativo. Só que não!

De mesmo modo, tenho a convicção de que as pessoas com deficiência ou alguém próximo não aceitavam as então "brincadeiras" ou "piadinhas" envolvendo suas características.

O distanciamento da diversidade provoca danos de irreparável monta e, vale destacar, que atitudes de origem étnica vêm desde a invasão ao Continente Africano com reflexos até os dias atuais onde as pessoas escravizadas foram tachadas de incapazes, inúteis, demoníacas, pelo só prazer institucional de desqualificar.

A solução e o combate a esse estado de coisas só serão minimizados com a implementação efetiva de políticas educacionais isentas de paixões, em nome da verdade absoluta e avaliadas por integrantes da sociedade em seus vários e ampliados segmentos, com o fim de evitar desacertos, informações equivocadas e desatualizadas, lembrando que já se comprovaram erros graves em várias disciplinas, dentre as quais a construção da sociedade e diferenças entre seres humanos.

No quesito etnia, um dos caminhos é regime de cotas, pois diante de tantos mecanismos de exclusão e da desigualdade monstruosa brasileira, é desumano se apoiar em "meritocracia" entre aquele que está na base - em sua maioria negros passando por toda espécie de privação e dificuldades - e chega disputar oportunidade com aquele que está no topo não alcança o objetivo apenas pela cor da pele. Logo o tratamento tem que ser diferenciado, soando maldoso sustentar meritocracia!

Não bastassem esses fenômenos, os ataques e danos causados à comunidade negra, com todo material e meios de comprovação, se repetem de forma acintosa, desde ataques às religiões de matriz africana a clássica ocorrência de balas perdidas, as quais "certeiramente" atingem pessoas de pele escura independentemente da idade e local!

Nessa mesma trilha as perseguições contra as pessoas de pele escura em supermercados e lojas, por exemplo, continuam e as pessoas de pele clara não alcançam os danos internos causados às vítimas e, de forma jocosa, dizem que é tudo "mimimi". Inobstante as providências jurídicas adotadas, as pessoas causadoras desses danos insistem na prática desafiando a impunidade, insistem na prática e na falsa ideia de que pessoas de pele escura não são merecedoras de respeito, o que é, sem dúvidas, inaceitável e imperdoável!

O título dessa matéria é real e, ainda com algumas conquistas pelo segmento, os resultados e maldades praticados contra a comunidade negra, lamentavelmente, se repetem causando estranheza ainda maior em nosso País, onde se encontra a maior miscigenação que se tem notícia que, por si só, afastaria qualquer prática discriminatória eis que não se há falar e pureza étnica. Daí a conclusão lógica que tais comportamentos decorrem da educação formal, construída a partir de parâmetros europeus e reproduzidos sem critério e avaliação da realidade.

Como disse o Padre Júlio Lancelotti :" O que tem no Brasil é escravagismo ... O que tem no Brasil é elitismo ... O que não acabou ou no Brasil é a casa grande e a senzala".

EGINALDO HONÓRIO é advogado


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