Opinião

Jundiaí nas alturas

O que estamos fazendo pra enfrentar questões de êxodos de brasileiros?


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EDUARDO PEREIRA ARQUITETO
Crédito: divulgação

Lançamentos de novos edifícios mostram um vigor do mercado imobiliário aquecido e uma irreversível transformação urbana. O que se vê são projetos que não têm qualidade de arquitetura e, às vezes, a ausência de arquitetos nas aprovações. Não basta atender as exigências dos códigos e restrições se subjetivamente não se pode julgar projetos ruins. E eles passam, com um banho de shopping e técnicas que melhoram muito os provocantes anúncios de venda.

Com os altos índices de qualidade que vendemos, água, saúde, arrecadação, Cidade da Criança, o município cresce em arrecadação e aumenta a oferta de apartamentos novos.

De que adianta gabarmos dos índices conquistados, se essa cidade está num país com 80 milhões de habitações inadequadas?

O tema que arquitetos estão há décadas denunciando hoje é o assunto principal do congresso União Internacional dos Arquitetos, na capital da arquitetura Rio de Janeiro, eleita para sediar esse evento mundial.

Os reflexos dessa iniciativa precisam ser amplificados e é impressionante o número de arquitetos em atividade paradoxalmente a uma imensa maioria da população sem acesso à habitação e muito menos ao projeto de arquitetura digno e com técnicas inovadoras que não estão sendo implantadas.

As comunidades e todos que não têm acesso ao nosso trabalho estão fazendo por sua conta e risco obras e reformas e deformações em habitações ruins que, mesmo as aprovadas, nas ampliações e reformas se transformam e passam para a informalidade, da cidade ilegal.

São 250 mil arquitetos e milhares de submoradias. Se os efeitos da pandemia serão atenuados em nove anos, imaginem como estaremos durante esse tempo? E chegaremos onde? Como será essa pós-pandemia que estamos aprendendo bem sobre a importância do morar e da saúde? De que vale nossa ilha que vivemos com distinções e valores conquistados ao longo da história, se o estado e o país não têm o que fazer com esse contingente de 100 milhões de pessoas que não sabem o que vão comer?

Se nada mudar o único caminho será: mudar para condomínios. E as ruas? A cidade, o que estamos fazendo pra enfrentar questões de êxodos de brasileiros e periféricos de São Paulo pra Jundiaí? Onde se proclama que tudo aqui é bom? Podemos ver pessoas morando nos lugares mais insólitos da área urbana e dos caminhos que percorremos a pé. Vejam o cenário de deterioração humana que acontece nos centro de são Paulo e no centro expandido, são centenas de cabanas dos mais variados materiais e improvisações que abrigam moradores eventuais de rua em fileiras sem fim e sujeira pra todo lado, ao mesmo tempo em que policiais bem vestidos contrastam com a miséria a sujeira e os craqueiros com seus cachimbos em um ritual público e diabólico; numa nova ordem e em uma nova paisagem central. A saída está ali: a Luz, pela ferrovia chegam fácil aqui, se instalam e vamos vendo a cada dia e cada vez mais nos inúmeros imóveis vazios para locação a presença dessa nova geração de brasileiros que não têm nada. Mas a presença grita pra todos nós a evidencia de que isso não vai bem.

Que o governo federal não faça nada é o que se vê, mas que o governo estadual e os municipais também não façam aí complica. Impossível elevar a estima jundiaiense com a água de Jundiaí, de sobra para todo tipo de expansão de condomínios e edifícios, mas que não pode ser usada em hortas urbanas. Ou nos orgulharmos com razão pela titulação da Cidade da Criança, quando demolem por obsolescência a casa Ricardo Zalaf, feita com grana e esforço de jundiaiense?

Fato imediato é que a ATHIS está aí pra ser implantada e o direito ao projeto gratuito e assistência técnica está para a população assim como o SUS e a justiça gratuita. O CAU Brasil (Conselho de Arquitetura e Urbanismo) assinou no último dia 21, em decorrência do 27° Congresso Mundial de Arquitetos, juntamente com a prefeitura do Rio de Janeiro, o CAU/RJ, IAB/RJ (Instituto dos Arquitetos do Brasil) e outras entidades um protocolo para promoção da Assistência Técnica na Habitação de Interesse Social em território carioca. O documento marca um compromisso das instituições em promover, capacitar, compartilhar dados e informações para que a ATHIS seja colocada em prática como ação de redução de desigualdades e direito universal à moradia digna. A grande questão é: quando poderemos começar a trabalhar, reduzindo as desigualdades e promovendo uma forma digna de habitar em nossa cidade?

EDUARDO CARLOS PEREIRA

é arquiteto e urbanista


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