Opinião

As redes e os dilemas (pt. 1: o vício)

Quando você ganha uma recompensa, seu cérebro ganha doses de prazer


ALEXANDRE MARTINS
FELIPE DOS SANTOS SCHADT ARTICULISTA
Crédito: ALEXANDRE MARTINS

Neurocientistas explicam que o cérebro de alguém apaixonado apresenta algumas ações bem interessantes, como estresse, compulsão, obsessão e prazer. Isso acontece porque a paixão é resultado de uma série de reações químicas que regulam o cérebro através de hormônios e neurotransmissores que podem ser encontrados em vários circuitos cerebrais, inclusive o circuito de recompensa.

Quando você ganha uma recompensa, seu cérebro ganha doses de prazer. Isso acontece por causa de um neurotransmissor chamado de dopamina. O interessante é perceber como sentir prazer é viciante. Veja, quando você é recompensado, você sente prazer e vai querer ser recompensado outra vez.

O salário é uma recompensa pelo trabalho realizado, a nota é a recompensa pelas horas de estudo, o elogio é a recompensa por algo bem feito. Mas o salário, só uma vez por mês. A nota, só na semana de provas. Em tese, receber recompensa requer uma série de fatores, muitos deles, alheios a você. Ainda mais que ninguém fica recebendo recompensas a cada coisa que faz… Bom, se a gente olhar para as redes sociais, a coisa muda de figura.

O Facebook te faz uma pergunta toda vez que você abre ele: "O que você está pensando?". É um estímulo para que você produza alguma coisa. Você verá que todos ali naquela página estão respondendo a pergunta do Facebook. Uns escrevem, outros postam fotos, alguns postam vídeos. E todos fazem isso com um único propósito: a busca pela recompensa que está na forma de um botão de "curtir".

Aqui é que está o primeiro pulo do gato: Você fez uma postagem e cada curtida é uma recompensa. Cada vez que você é recompensado, dopamina é liberada no seu cérebro e, claro, prazer. E é por isso que você posta coisas nas redes sociais, para ser recompensado e satisfazer sua necessidade química de prazer. E quanto mais curtidas, mais viciado você fica.

E aqui vem o segundo pulo do gato: Os criadores e gestores das redes sociais sabem disso. E mais, fazem um uso consciente dessa dependência para você produzir conteúdos e alimentar suas redes. Sean Parker, cofundador do Napster e primeiro presidente da empresa de Mark Zuckerberg, disse em uma entrevista a Axios que:"É um loop de resposta de validação social (…). é o tipo de solução que hackers, como eu, usamos, pois você está explorando uma vulnerabilidade psicológica humana."

Mas temos que ser razoáveis. Nunca experimentamos algo parecido com tanta frequência e intensidade. Não é fácil alguém olhar pra você na rua e dizer "Ei, curti sua roupa", ou "Nossa, curti esse prato de comida que você está prestes a comer", ou ainda "Ual, posso compartilhar com os meus amigos isso que você acabou de me dizer?". Nas redes sociais isso acontece a todo instante e a toda vez que acontece, dopamina pra você. E como todo viciado, as doses vão ficando insuficientes e você precisa de cada vez mais, ao ponto de ficar em estado de fissura se não receber uma notificação.

Toda a engenharia das redes sociais é pensada para manter seu vício. É uma estrutura tão completa que eles sabem exatamente como manter você motivado a sempre postar e, sempre postando, você vai estimulando outras pessoas a postarem.

E algumas pessoas não se importam muito com o meio de conseguirem sustentar seu vício. Nas redes sociais, é possível notar que algumas pessoas compartilham notícias falsas mesmo sabendo que se trata de desinformações, porque sabem que sua bolha vai lhe encher de recompensas. Em outros casos, a exposição da privacidade e da intimidade também não é um problema. Para dar conta do vício, vale qualquer coisa.Estamos todos em uma rede de viciados, mendigando por curtidas.

E mesmo consciente você vai terminar de ler esse texto e vai voltar para suas redes. Sabe porquê? Porque é a sua nova função na ordem social. Uma ordem social que enterrou Deus e criou uma nova divindade, tudo isso com a sua ajuda… Falo disso, na próxima coluna.

Obs.: E se você achar que esse texto lhe proporcionará alguma recompensa, então compartilha. Quem sabe você não ganha um punhado de likes?

Conhecimento é Conquista

FELIPE SCHADT é jornalista, professor e cientista da comunicação pela USP


Notícias relevantes: