Opinião

Entoemos este hino de fé viva e verdadeira

A Festa da Padroeira movimentava toda a população


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HOMENAGEM DOUTOR JOSE RENATO NALINI NO FORUM
Crédito: divulgação

15 de agosto é a data em que Jundiaí reverencia sua padroeira, Nossa Senhora do Desterro. Essa invocação guarda a simbologia da legendária fundação da cidade. Petronilha Antunes e Rafael de Oliveira, acusados de bandeirismo, fugiram de São Paulo em direção ao "Mato Grosso", parando em um local aprazível. Numa elevação construíram rústico templo, uma capela que foi dedicada à Sagrada Família, rememorando a fuga para o Egito.

Essa história foi estudada por Alceu de Toledo Pontes, por Inocêncio e Mário Mazzuia, pelo padre Antonio Stafuzza, por Roberto Franco Bueno, por Geraldo Tomanik e, mais recentemente, pelo historiador Luiz Haroldo Gomes de Soutello. Mereceria suscitar novos concursos e novas pesquisas, com incentivo da Prefeitura, para que jundiaienses e os que aqui acorram, saibam amar - por conhecerem melhor - as "belas tardes amenas" da urbe.

A capela foi sendo frequentada pela crescente população. Virou Igreja Matriz, quando a cidade já contava com outras paróquias. Finalmente, converteu-se em Catedral, por ocasião da criação da Diocese, em 1967, obra e graça de Dom Agnelo Rossi, cujos pais residiam à rua Moreira César e que nos trouxe como primeiro bispo, um santo: Dom Gabriel Paulino Bueno Couto.

Era aquele "máximo de espiritualidade num mínimo de matéria", mencionado por Dom Agnelo quando da instalação do bispado em nossa cidade.

Em tempos idos, a Festa da Padroeira era um acontecimento que movimentava toda a população. Meses antes nomeava-se a Comissão de Festas. Casais grados na sociedade se encarregavam da celebração. Havia a novena preparatória, prédicas para as quais eram convidados os grandes pregadores. Festas antecediam o grande dia. O ponto alto era a procissão. O magnífico trio estatuário desfilava pelas ruas centrais, antecedido por um grandioso desfile de todas as associações
religiosas.

Eram muitas: a Irmandade do Santíssimo Sacramento, com suas opas negras e emblemas rubros, a Pia-União das Filhas de Maria, a Associação das Mães Cristãs, a Irmandade de São José, a Cruzada Eucarística, todas elas com seus afiliados e os seus maravilhosos estandartes.

A glória era carregar o estandarte à frente do pelotão devoto. Eram também tempos em que as mães faziam questão de que suas filhas formassem as legiões de anjinhos, com suas asas brancas, em compenetrado acompanhamento à viva demonstração de fé.

Tamanha era a fé desta terra, que as residências nas ruas do Rosário e Barão de Jundiaí eram adornadas com altares e flores, tudo em homenagem à Senhora do Desterro, para quem Haydée Dumangin Mojola, autora do "Hino a Jundiaí" - "Ó terra querida, Jundiaí, teus filhos amantes são de ti" - fez um outro cântico. Exatamente o "Entoemos"!

Entoemos, este hino de fé viva e verdadeira, à Senhora, do Desterro, nossa Santa Padroeira!

Como é bonita a religião, quando levada a sério. Maneira de se religar o ser humano ao seu Criador. Mediante o chamamento a uma valiosíssima intercessora: a própria mãe de Jesus Cristo.

Impressão minha ou aqueles tempos eram menos conflituosos do que os presentes? Penso na frase de Robert F. Kennedy: "O PIB mede tudo, menos aquilo que faz a vida valer a pena".

Passamos a cultivar um pensamento materialista, colocando o nosso alvo nos valores da acumulação de bens materiais. A razão está com o Butão, que é um pequeno país, com menos de um milhão de habitantes. Praticamente espremido entre China e Índia, ambos com mais de um bilhão de habitantes. Pois ali se adota, desde 1970, um indicador do andamento de sua economia e prosperidade completamente distinto do padrão internacional. Em lugar de PIB - Produto Interno Bruto, adota o FIB - Felicidade Interna Bruta.

Mais importante do que o desenvolvimento material é o desenvolvimento espiritual. E isso significa estar em paz com a transcendência. Se existe quem não se preocupe com a nossa origem, nem com o nosso futuro, não sente falta de explicações para o surgimento de uma existência num determinado momento histórico, num país e no seio de uma determinada família, tudo bem.

Sou daqueles que não se conformam com a explosão a dar nascimento a tudo o que existe. Recorro ao design inteligente e nele, a Providência divina atua. Também por intercessão de Maria.

Que ela proteja Jundiaí, a ameaçada Serra do Japi, converta os detratores da natureza, que também desrespeitam o milagre da vida e são tolerados até por aqueles que são pagos para tutelar o ambiente.

JOSÉ RENATO NALINI é reitor da Uniresgistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras - 2021-2022


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