Opinião

Proximidades e distâncias

Todo tipo de violência, enumerado na Lei, dói, seja ela física, psicológica, sexual


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MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE (NOVA)
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Esta crônica nasceu numa manhã ao lado da Catedral NSD. Pequena cambacica, conhecida também, por papo-amarelo, se encontrava no chão, junto à entrada lateral. Cheguei perto e ela se manteve me observando. Uma graça! Estabelecemos uma sintonia de encanto.

Dá-me leveza à alma o achegar-me aos seres, humanos ou não, diferentes, que me fazem sentir que não inspiro distâncias. Amo proximidades.

A moça me contou que, após sair da cadeia de sua cidade, onde permaneceu por oitenta dias, devido a um mal entendido no bar que frequentava aos domingos, os familiares a rejeitaram. Não quis pegar a mochila e rumar por estradas diferentes. Deteve-se, até que conseguiu se refazer, no bosque no qual brincava na meninice. Durante o dia, visitava conhecidos. O banho era em um local público assim como as roupas lavadas. Na hora do lusco-fusco, dirigia-se ao bosque e, ao não haver ninguém nas adjacências, subia em um carvalho, onde passava a noite. Fez isso por três meses. Embora rejeitada, considerou prejuízo perder as cercanias de sua infância. Para ela, que é toda cantiga, a música de superação é: "O Que é, o Que é" de Gonzaguinha: "Cantar e cantar e cantar/ A beleza de ser um eterno aprendiz..."

Há, no entanto, determinadas criaturas que são ou foram sombrias. Dessas, embora se possa e deva perdoar, é melhor lonjura.

Vem-me, por exemplo, a questão da violência psicológica, um dos tipos enumerados na Lei Maria da Penha, que completou 15 anos no último dia sete de agosto, considerada, dentre outras, qualquer conduta que cause dano emocional e diminuição da autoestima. Incluem: constrangimento, humilhação, manipulação, insultos, ridicularização, distorcer e omitir fatos para deixar a mulher em dúvida.

Quantas de nós já passamos por isso e, pelo papel que o manipulador ocupava na sociedade, ter a lucidez do acontecido poderia levar um certo tempo, até mesmo para discernir sobre palavras mascaradas de candura. Todo tipo de violência, enumerado na Lei, dói, seja ela física, psicológica, sexual, patrimonial e moral, pública ou privada; e entristece, igualmente, o descrédito sobre aquilo que a mulher passou ou está atravessando.É um hematoma para quem abre o coração. Há marcas que o afastamento,de certa forma cicatriza, mas novas situações podem, em um determinado momento, recuperar lembranças, embora solucionadas, nocivas. Isso não significa que se ficou com algo mal resolvido. A pessoa simplesmente deseja distância de quem lhe faltou com o respeito. Ou se escolhe a derrota ou a firmeza para dizer não.

Admiro em demasia Santa Edith Stein, OCD (1891-1942) que, ao entrar para o Carmelo, adotou o nome de Tereza Benedita da Cruz. Judia, filósofa e religiosa, nasceu na cidade de Breslau na Alemanha. Foi morta, juntamente com sua irmã Rosa, na câmara de gás do campo de extermínio de Auschwitz-Birkenau.

Em relação à fenomenologia, da qual em 1916 recebeu o título de doutora, foi aluna brilhante do filósofo e matemático Edmund Husserl (1859-1938), também alemão de origem judaica vítima do antissemitismo. A centralidade da pesquisa de Stein diz do ser humano no mundo como indivíduo e em sociedade.

Gosto desta colocação dela no aspecto feminilidade: "A alma da mulher deve ser ampla a tudo o que é humano. Deve ser cheia de paz, porque as fracas chamas se apagam na tempestade; deve ser quente para não enregelar as pequeninas sementes; deve ser luminosa para que, nos cantos escuros, não cresçam ervas daninhas; deve ser reservada, porque as interferências externas podem pôr em perigo sua vida íntima; deve ser vazia de si para deixar amplo espaço para os outros. Deve ser, acima de tudo, dona de si e do próprio corpo para que sua personalidade esteja sempre pronta a servir em cada necessidade".

Repito: "A alma da mulher (...) deve ser luminosa para que, nos cantos escuros, não cresçam ervas daninhas". O que se deu de maneira hostil e ameaçou a mulher, com desvios de atitude e estupidez, não se deve restabelecer. Que as proximidades sejam com tudo aquilo que permite o desabrochar de girassóis.

MARIA CRISTINA CASTLHO DE ANDRADE é professora e cronista


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