Opinião

Mulheres afegãs: a vida em questão

A lei afegã não contempla liberdades democráticas para as mulheres


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MARGARETE ARILHA NOVA
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De todas as agruras que do longínquo Afeganistão surgiram, uma imagem que muito me impressionou foi a de um pintor de outdoors que, simplesmente, pintava o apagamento de mulheres em outdoors. Simplesmente, todos os rostos de mulheres em outdoors estavam sendo apagados. Assim, a vida das mulheres passam a ser apagadas. Deixam de existir. Assim, simplesmente. Não há como exibir a surpresa, tão contundente quanto o apagamento. Não há como não registrar surpresa terrível: a capacidade humana de produzir atos que dizem muito pouco da direção a uma harmonia civilizatória. O Georgetown Institute for Women, Peace and Security inclui o Afeganistão entre os países mais inseguros para as mulheres, na análise feita para os anos de 2019/2020. Organizações que velam pelos direitos humanos das mulheres, tais como Human Rights Watch ou a Anistia Internacional, têm alertado para a tremenda violação dos direitos das mulheres. Apelos têm sido feitos para que os países vizinhos deixem abertas suas fronteiras para que a população possa escapar das agruras da violência, particularmente as mulheres.

A lei afegã não contempla liberdades democráticas para as mulheres. Estão sempre citadas nos códigos morais e religioso e inclusive da lei, no sentido de restringir possibilidades de circulação, por exemplo, sem um tutor masculino. O presidente Karzai, em 2012, aprovou esse código, que inclusive impede que as mulheres se mesclem com homens em lugares públicos como escolas, mercados, oficinas. A lei de restrição de circulação veta o movimento para as mulheres, para além de seus circuitos domésticos e referenciados como sendo específicos da vida reprodutiva. Nada de aprendizagens ou de experiências que coloquem em risco a obrigação de permanecer restritas. Por exemplo, no ano de 1996, quando o primeiro ministro foi Hekmatyar, o Estado Islâmico de Afeganistão as mulheres chegam a sofrer uma espécie de prisão domiciliar, não podendo deixar-se ver em público, saírem as ruas apenas com as burkas completas, acompanhadas, e não poderiam trabalhar e até não poderiam se atendidas por médicos. A "sharia", ou a lei talibã, colocava restrições muito severas às mulheres que eventualmente descumprissem os códigos estabelecidos. O adultério era tratado com profunda violência pública, inclusive.

Do ponto de vista das mudanças que podem acometer as mulheres uma das mais cruciais está associada à voz. Para quem pensa a psicanálise como processo de compreensão das formas culturais e politicas, e de como os sujeitos humanos se instalam nos processos civilizatórios, é de fato quase que incompreensível que uma cultura tenha a força de imposição do desaparecimento do Outro. Pensar que a reprodução biológica e cultural de qualquer sociedade não pode se dar sem a presença das mulheres, que tipo de cultura é a que se instala sobre o outro, que se instala negando aquilo que lhe falta, com violência? O distanciamento daquilo que é visto como masculino é um fato exigido às mulheres. O que lhes restaria neste mundo contemporâneo de tanto impedimento e destruição? A castração, entendida no vocabulário da psicanálise, é impingida apenas as mulheres, mas de maneira a ressaltar processos destrutivos. Aos homens registra-se uma tentativa de superioridade simbólica, que os deixa também travestidos em seres pretensamente ilimitados e, portanto, sem dar-lhes a possibilidade de serem humanos, simplesmente.

Como se ocupará o mundo do sofrimento daí resultante? A rapidez com que as mudanças se instalam podem ser preditivos de mudanças positivas? Haverá algum tipo de compensação e equilíbrio que será possível fazer, sobretudo com as meninas e com as jovens garotas? De que tipo de sofrimento poderão elas serem poupadas? Por quem? Como é que nossas culturas podem ainda ser tão agressivas em seu modo de operar? Como podemos ser tão pouco construtivos diante do medo e do terror? Ou será o medo e o terror que nos conduz, como humanidade, a critérios de ação tão pouco satisfatórios? Quando chegará o momento de amordaçar e acalmar a pulsão de morte que ressoa em nossas subjetividades?

MARGARETH ARILHA é psicanalista e pesquisadora do Nepo (Núcleo de Estudos em População Elza Berquo), da Unicamp


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