Opinião

O conto da floresta e Descartes

Quanto maior a complexidade de um sistema maior sua imprevisibilidade


ALEXANDRE MARTINS
ARTICULISTA ELISA CARLOS
Crédito: ALEXANDRE MARTINS

Imagine uma floresta, com muitas árvores, os fluxos de água, animais, insetos, felizes no seu desabrochar da primavera, quando de repente o verão chega mais cedo do que o esperado. Então, as árvores mais antigas se reúnem e decidem compor um plano de ação. Elas pedem que os criativos coelhos criem uma mensagem bem bonita e motivacional para que as pombas avisem todos os seres que o assunto está sendo tratado com muito esforço pela cúpula da floresta.

Assustados e perdidos, os animaizinhos param suas atividades, aguardando as ordens dos superiores. Enquanto isso, as árvores maduras delegam às árvores seniores a criação de estratégias. As seniores, por sua vez, repassam a atividade para as árvores juniores que então buscam dados secundários e benchmarking com outras florestas para entender como alguém um dia já resolveu esse impasse em outras épocas. Em uma semana os juniores apresentam para os seniores, que passam diversas horas em reunião, trabalhando o tamanho da fonte, o formato do slide e mais perfumarias para que a mensagem seja muito clara para as árvores maduras. As reuniões atravessam as madrugadas, até que finalmente, com somente 10 dias de atraso, o plano é apresentado para as árvores mais velhas. Novas reuniões se encaminham, com a intenção de ser o plano mais completo possível… E então mais 15 dias para novas pesquisas, até que depois de 45 dias que o verão chegou mais cedo, as árvores maduras aprovam o plano de ação da floresta e pedem que os coelhos novamente comuniquem para o restante dos seres. A comunicação então alcança 90% da floresta e aí já se passaram mais 45 dias, o verão acabou e o outono chegou.

Sabe porque isso tudo pareceu um absurdo ou uma grande e gostosa fantasia? Porque a floresta compõe um sistema e, portanto, abraça sua complexidade, se comportando de forma auto-regulada. Só que a gente usa esse mesmo approach para muitos outros sistemas.

Nossa medicina, nossas universidades, a física clássica, boa parte da filosofia, nossas técnicas de gestão são pautadas por esse tipo de pensamento linear, centralizador, o Mecanicista, lá do século 18. René Descartes e Spinoza juntos criaram a visão cartesiana. Um movimento muito importante na época, que preconcebeu as revoluções industriais, observando o mundo todo de forma linear, e assumindo um funcionamento, inclusive dos seres vivos, como máquinas. Máquinas não são sistemas, máquinas são previsíveis, não há ciclos de feedbacks circulares que transformam as ações da máquina por auto-regulação (somente na indústria 4.0 com muito esforço, os engenheiros, principalmente os alemães, tentam colocar ciclos de feedbacks automáticos, mas mesmo assim ainda são previsíveis).

Para um conjunto de coisas ser considerado um sistema é preciso que suas partes sejam interativas, inter-relacionadas e interdependentes e que foquem para um único propósito. Como exemplo, a floresta, nosso corpo, nosso cérebro, um time de futebol ou uma salada de fruta. Oi? Sim, uma salada de fruta pode ser considerada um sistema, porque o cítrico da laranja interfere na taxa de oxidação da maçã, e no final comer uma maçã, uma laranja e uma pera separadas é diferente do que comê-las numa salada de frutas.

Um sistema por sua natureza é complexo, não é linear, as coisas não acontecem uma de cada vez, elas acontecem o tempo todo, gerando reações, e reações das reações de forma circular e auto-regulada. Ou seja, o verão chega mais cedo, a temperatura sobe, as plantas que precisam de mais intensidade de luz florescem, os insetos são atraídos, predadores buscam os insetos e por aí vai… Não dá pra controlar, metrificar e definir quais ações precisam ser feitas. E quanto maior a complexidade de um sistema, ou seja, quanto maior o número de partes integrantes que se relacionam, maior sua auto-regulação e sua imprevisibilidade. Isso é visão sistêmica, isso é system thinking. Uma forma de pensar que vem tomando forma e força desde o início do século 20 com as discussões ecológicas e com a invenção do computador.

Nosso cérebro é extremamente complexo, nosso corpo é extremamente complexo e cheio de auto-regulações que a gente nem toma conhecimento. Nós somos capazes de controlar uma ínfima parte do nosso corpo, imagine então de uma empresa? Do mundo?

Eu sou muito grata pelo Descartes e pelo Spinoza e sua existência em 1600, mas depois de mais de 500 anos, eu acho que já passou um pouco da hora de revermos nossos sistemas, principalmente de saúde, educação e gestão… Para mim, a melhor forma de descrever o que sinto é aquela que o pessoal do BioNathus colocou no banheiro bem em cima da descarga: "ah que bom que você chegou! Aproveite esse momento, ele pode ser inspirador! E lembre-se Descartes só na lixeira!"

ELISA CARLOS é mãe da Nina, da Gabi, engenheira, cozinheira e em breve de volta ao mercado de inovação


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