Opinião

Nossos caminhos simbólicos

Até para revigorar a cultura ecológica é importante voltar ao folclore


divulgação
HOMENAGEM DOUTOR JOSE RENATO NALINI NO FORUM
Crédito: divulgação

22 de agosto é dia do folclore. Algo que deveria movimentar toda a nacionalidade, detentora de um dos mais ricos folclores do planeta. Infelizmente, a mentalidade colonial, o velho complexo de "vira-lata", faz com que importemos costumes exóticos e desprezemos o genuíno.

O folclore é a fórmula encontrada para que se prestigiem os símbolos existentes numa cultura, quais marcos do infindável caminho da humanidade, saindo das trevas para a luz, do inconsciente para o consciente.

Tudo o que forma a identidade cultural brasileira serve para fortalecer a ideia de pertencimento, a produzir orgulho diante de integrar uma nação de tamanha exuberância. A dimensão imaginária faz com que o brasileiro encontre, em suas lendas, explicações inteligentes para mistérios que existem desde a caverna platônica.

O mito da caverna é de uma eloquência magnífica. A humanidade está presa na escuridão, conseguindo apenas vislumbrar vultos delineados à luz bruxuleante de pequena e frágil chama. Pensam que a realidade é apenas isso. Somente a coragem de um dos habitantes da caverna permite que ele deixe a escuridão e se encontre com a luz solar.

De início, fica ofuscado. Não consegue enxergar nada. Mas aos poucos descobre o colorido, a riqueza de tonalidades do mundo real. Os mitos servem para isso. Para abrir os olhos da humanidade, para fazer com que ela adquira a sua consciência coletiva.

Todos os mitos têm sua utilidade. As diversas qualidades do ser humano residem neles, até de forma enfática, pode-se dizer exagerada ou caricaturizada. Mas têm sua serventia. O folclore que oferece figuras malévolas tem o sentido de alertar a criatura racional para os perigos que ela enfrentará ao longo de sua jornada existencial.

O tesouro simbólico dos mitos é uma fonte que permite contínuo reabastecimento da consciência coletiva. Todo brasileiro reconhece a esperteza, a sagacidade, a inteligência matreira de Pedro Malasartes. Sabe que o saci-pererê é um personagem que gosta de fazer brincadeiras, prendado em suas travessuras, como fazer nós nas crinas e nos rabos dos cavalos. Mãe d'água, ou Iara, lembra a sereia e tem o fascínio das águas profundas, o boto-cor-de-rosa é personagem enigmático, algo sensual e ao mesmo tempo arriscado. Engravida as moças que se aproximam dele.

Dois entes folclóricos que merecem atenção maior nestes tristes tempos que vivenciamos são o boi-tatá e o curupira. São guardiões da floresta e protetores da fauna.

Parece que foram aposentados pela política dominante de terra arrasada, a semear desertos em todos os biomas nacionais. A Amazônia continua devastada, apesar dos gritos internacionais advertindo o governo brasileiro de que haverá barreiras para a exportação, quando houver dúvida sobre a tutela ambiental.

Até a Mata Atlântica, mais próxima de nós, que restara com fragmentos preservados por titulares dominiais particulares, sofreu golpes fatais nos últimos anos.

Isso também evidencia o enfraquecimento da cultura popular, que temeria a reação dos mitos tutelares da natureza, caso perpetrassem ataques contra os bosques, as árvores, privado de condições de subsistência aos animais que habitam a mata, ainda não tivessem consciência de que a vítima será o próprio homem.

Até para revigorar a cultura ecológica é importante voltar ao folclore e explorar os mitos que o habitam. Esse conhecimento deixou de ser algo exótico, superficial e de nenhum interesse para a vida prática, para se tornar fonte inesgotável de reflexões. Basta dizer que Freud, Jung, Neumann, Melanie Klein, Erich Fromm, Mircea Eliade e Junito de Souza Brandão, ao estudarem os mitos, neles detectaram a rota para, através do conceito de arquétipo, abrir para a Psicologia, para a Sociologia, para a Antropologia e para a Filosofia, novos cenários.

Importante, ainda, verificar as mutações que ocorrem com as figuras folclóricas nas várias regiões deste país continental. Tais variantes representam o pulmão da mitologia, do folclore, a renovar, em cada inspiração/expiração, tonalidades novas e surpreendentes dessas figuras que refletem o labirinto de nossa mente.

O folclore precisa ser levado mais a sério na educação formal - em todos os níveis -, na educação informal e na vida cotidiana de cada um de nós. Feliz dia do folclore!

JOSÉ RENATO NALINI é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras - 2021-2022.


Notícias relevantes: