Opinião

Precisamos falar sobre saúde mental?

Estamos preparados para agir sobre o adoecimento psíquico?


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ALEXANDRE MORENO SANDRI
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Nunca falamos tanto sobre saúde mental. A pandemia por covid-19 e os evidentes impactos ao estado emocional das pessoas intensificaram um processo em curso há alguns anos, que traz para o centro da cena social a reflexão sobre os males do sofrimento psíquico e a importância do cuidado em saúde mental, enfim equiparando sua relevância às questões exclusivamente relacionadas ao corpo que, numa oposição que remete à nossa herança cartesiana, durante décadas, ocuparam o centro do debate.

Historicamente, o foco nas questões de saúde mental remete, inicialmente, à década de 70, quando assistimos a um aumento expressivo dos índices epidemiológicos de depressão, associado a um determinado modo de organização social, que passa a tomar como ideais a produtividade, a motivação e a busca infinita pela felicidade.

Semanas atrás, durante os Jogos Olímpicos de Tóquio 2020, o mundo acompanhou com surpresa a história de Simone Biles. A ginasta decidiu abandonar a final da ginástica feminina reconhecendo sentir-se "pressionada e insegura" para seguir na competição e destacando a necessidade de "colocar sua saúde mental como prioridade".

Rapidamente, o episódio detonou o processo, absolutamente característico de nossos tempos, de viralização da discussão nas redes sociais e mídias on-line. O tom, em geral de apoio à decisão da atleta, destacava a importância de reconhecermos nossos limites, de priorizarmos a saúde emocional em detrimento das pressões sociais, reiterando a importância de cuidarmos da saúde mental. Neste cenário, multiplicaram-se postagens, notícias, memes, nas quais o mote principal era "Vamos falar sobre saúde mental", ou "Precisamos falar sobre saúde mental".

Precisamos? Não tenho dúvidas que sim! Trazer ao debate social a discussão sobre o que nos faz sofrer, hoje, pode fornecer elementos que nos auxiliem num reposicionamento diante dos processos que resultam em sofrimento psíquico. Falar sobre a importância do cuidado em saúde mental (e que este cuidado não se resume a procurar ajuda de um profissional especializado quando necessário, mas se constitui antes, na capacidade de reconhecer-se na forma de estar no mundo e nas relações e de reconhecer, inclusive, os próprios limites) também pode resultar na redução do estigma e preconceito em torno do tema, ainda tão presentes.

Ainda assim, o convite viralizado a "falarmos sobre saúde mental" também produziu incômodo. Porque o convite a "falar sobre" comporta o risco de apenas falarmos, sem qualquer passagem à ação sobre os problemas reais que impactam a saúde mental da população. Tal incômodo grita quando assistimos os próprios agentes e dispositivos de produção do sofrimento psíquico reproduzindo acriticamente o convite a falarmos sobre saúde mental, num "looping" infinito que tem como único objetivo produzir conteúdo e engajamento. Neste caso, longe de pretender uma verdadeira reflexão sobre o mal-estar contemporâneo, estaríamos diante de um simulacro, que talvez produza certo alívio, mas está a serviço da manutenção do sintoma social.

O desdobramento do incômodo nos leva inevitavelmente a outro ponto: estamos preparados para falar, mas também agir sobre aquilo que produz adoecimento psíquico na sociedade contemporânea? Se sim, será que está evidente, para a maioria da população, que a desigualdade no acesso à saúde, educação, cultura, lazer, habitação se configuram como importantes determinantes sociais de adoecimento? Ou que as relações raciais ainda produzem marcas e destinos de árdua superação? Será que estamos dispostos a repensar a relação com o trabalho (o apagamento das fronteiras entre a vida profissional e pessoal, promovido pelas ferramentas de comunicação on-line, é um importante fator de adoecimento psíquico contemporâneo) e a pressão constante para o atingimento de resultados, especialmente em algumas carreiras? Ainda, estamos dispostos a discutir e estabelecer outras relações com a tecnologia e com o uso das redes sociais, adotando mecanismos de mediação e regulação que se interponham em favor dos sujeitos (ou naturalizaremos o fato de crianças e adolescentes se constituírem subjetivamente a partir da relação sem mediação com visualizações e curtidas?). Enfim, não vamos "só" falar sobre saúde mental!?

ALEXANDRE MORENO SANDRI, psicólogo, mestre em Psicologia Clínica pela USP, especialista em Psicologia do Desenvolvimento pela Unicamp, atualmente coordenador de Saúde Mental, Álcool e outras Drogas de Jundiaí


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