Opinião

Palácio Capanema, mais uma tragédia anunciada?

O Palácio Capanema é símbolo maior e paradigma da arquitetura-arte


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EDUARDO PEREIRA ARQUITETO
Crédito: divulgação

Diversas iniciativas no início do século 20 modificaram o panorama do país a partir do Rio de Janeiro que determinaram a introdução de um movimento moderno no Brasil. O manifesto de modernidade brasileira foi importante na implantação de conceitos que foram inovadores, pioneiros e determinantes na formação de um "jeito" brasileiro de fazer arte, arquitetura e de preservar bens da história da cultura.

Le Corbusier, a convite de Gustavo Capanema e seu time, faz, juntamente com arquitetos brasileiros, o Palácio Capanema, em 1936, símbolo maior e paradigma da arquitetura-arte brasileira.

Está assim introduzido o que seria a cara, o método, a ideia, o procedimento, o jeito brasileiro de fazer moderno.

O povo brasileiro foi surpreendido pela colocação à venda deste bem cultural que é nossa maior referência em modernismo. Está próximo a receber o título de bens brasileiros que integram a lista de patrimônios da humanidade da Unesco.

Esse edifício leva o nome do ministro do então Ministério da Educação e Saúde Pública, Gustavo Capanema - responsável pela construção. Assim o fez de forma que representasse um novo momento cultural instaurado no Brasil, o primeiro edifício moderno, apesar da guerra e da ditadura de Vargas. Um edifício arte, com jardins de Burle Marx, painéis de Portinari e Guinard e móveis de desenho moderno para o edifício, que até hoje permanecem lá, impecáveis. O edifício passa por um processo de restauração de 120 milhões de reais para receber de volta os funcionários da, hoje, Secretaria da Cultura do Brasil.

A sua anunciada venda é um desastre. O que não consigo admitir é que seja usado esse expediente de venda para desfocar os problemas políticos do governo! Isso considero uma tragédia, que, nesse momento, por causa de uma próxima disputa eleitoral perdida, a conta recaia sobre o nosso maior patrimônio moderno. Terrível e inominável atitude que só coroa as outras dramáticas investidas contra o patrimônio cultural brasileiro que vêm sendo noticiadas a cada dia. Chega!!!

Cronograma da destruição:

2018, em meio ao incêndio do Museu Nacional, ele, em campanha, disse: "Já está feito, já pegou fogo, quer que faça o quê? O meu nome é Messias, mas eu não tenho como fazer milagre".

2019 extingue o Ministério da Cultura, que passa a responder como Secretaria.

2020 o então secretário da Cultura faz um pronunciamento nazista onde afirma assim como Goebbels: "arte brasileira da próxima década será heroica".

Em todo esse período, projetos culturais são submetidos a um policiamento ideológico.

2021, a cinemateca brasileira, sob a tutela da Secretaria da Cultura federal, queima e perde grande parte do seu acervo.

A colocação política de pessoas sem conhecimento exigível para a administração das áreas da cultura, como Roberto Alvim substituído por Regina Duarte, em pouco mais de um mês inerte, é demitida. Vale lembrar que foi prometida a gestão da cinemateca, o que não aconteceu, mas que foi esvaziada e termina nessa tragédia anunciada. Queimou!

Basta de usar nosso trabalho, nossas conquistas culturais numa politica oportunista para tentar salvar um governo que esta indo à deriva.

Arquitetos estão pasmos! Tudo o que foi possível já foi feito para reverter a intenção de venda. O que precisamos lembrar é o preço dessa energia que se gasta para fazer voltar atrás atitudes insanas que mobilizam a atenção do país para cair a pauta das graves coisas que acontecem diariamente e podem ser desfocadas.

No estado de São Paulo algumas decisões polêmicas de privatização também acontecem no governo Doria, por exemplo a frustrada tentativa de fazer um shopping Center no Ginásio de Ibirapuera ou quando o estado colocou à venda a área ocupada pelo Centro Avançado de Pesquisa em Engenharia e Automação do IAC - Instituto Agronômico de Campinas, em Jundiaí.

A diferença entre o que é municipal, o que é estadual e o que federal precisa ser muito clara. Enquanto em Jundiaí se faz o Mês do Patrimônio Histórico no mesmo momento se anuncia a venda da nossa maior referência moderna, o Palácio Capanema, que iniciou um movimento moderno sem volta, que contabiliza obras importantes como a Pampulha, em Belo Horizonte, e Brasília.

EDUARDO CARLOS PEREIRA
é arquiteto e urbanista


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