Opinião

As redes e os dilemas (pt. 3: a lei)

As informações precisam de um cano para fluir e esse cano é você!


ALEXANDRE MARTINS
FELIPE DOS SANTOS SCHADT ARTICULISTA
Crédito: ALEXANDRE MARTINS

Um dia desses vi um meme que achei engraçado. Era uma imagem de Moisés segurando as tábuas de pedra com os dez mandamentos e na descrição da imagem estava escrito o seguinte: "Tecnicamente, Moisés foi o primeiro homem a baixar dados da nuvem em um tablet". Moisés desceu do Monte Sinai com duas placas de pedra contendo mensagens escritas, segundo ele, pelo próprio Criador. Os dez mandamentos formam a base das leis cristãs que, até hoje, servem de guia da moralidade de seus fiéis. Mas é de outra religião que eu quero falar hoje. Quero continuar nosso papo sobre dataísmo e contar para você qual é a lei que rege os seguidores dos dados.

Diferente do cristianismo, o dataísmo possui um único mandamento: As informações devem ser livres! Faça o que fizer na internet, nunca em hipótese alguma impeça a informação de circular livremente.

Se os dados não circularem, a internet simplesmente não funciona. Pare para pensar um pouquinho comigo. O que é a internet? Ela é praticamente um banco. Imagine se todos os correntistas do banco X resolvem tirar todo o dinheiro que eles depositaram lá. O que acontece com o banco? Ele quebra. Com a internet é exatamente a mesma coisa. Todas as informações dentro da internet são produções nossas. Se todos nós pararmos de depositar informações lá, a internet deixa de existir.

Lembra do Orkut? Desativada em 2014, a rede social viu seu declínio por dois motivos. O primeiro, foi a ascensão do Facebook: diferente do Orkut, as pessoas não precisavam buscar por informações dos seus amigos indo até suas páginas, as informações chegavam até elas pelo feed de notícias. O segundo motivo foi embalado justamente pelo feed do Facebook. As pessoas gostavam da ideia de postar alguma informação e saber que ela poderia parar no feed de outras pessoas. Ser visto no Facebook era muito mais fácil, então, como uma diáspora rumo a terra prometida, os usuários abandonaram o Orkut.

Com isso aprendemos que a internet só sobrevive se houver pessoas dispostas a compartilhar informações nela e mecanismos que facilitem. Eis o primeiro grande ponto da lei dataísta. Deixar as informações livres significa produzir dados e compartilhá-los.

Um dos grandes demônios do dataísmo é o Pay Wall, que é basicamente um muro que separa as informações das pessoas. Alguns dos grandes jornais do mundo se utilizam dessa tática para restringir conteúdo com mensagens como "Restrito para assinantes".

Porém o dataísmo também possui os seus santos. Aaron Swartz, um hacker americano que enfrentou essa prática de restringir acesso à informações. Sua causa ganhou holofotes quando a biblioteca digital ISTOR, que abriga milhões de trabalhos científicos, decidiu cobrar de seus leitores para acessar seu acervo. Aaron - mesmo nome do irmão mais velho de Moisés, veja você -,acreditava que ideias não pertenciam às pessoas individualmente e sim eram uma propriedade universal. Invadiu o sistema da biblioteca, baixou milhares de trabalhos e pretendia liberar para toda a internet. Por causa disso ele foi preso e, antes de ser levado a julgamento, cometeu suicídio. Um mártir dataísta que seria canonizado sem nenhuma dificuldade pelos sacerdotes da internet.

Se no humanismo o ser humano está no centro do universo e no dataísmo são os dados que tomam esse papel, o que será de nós nessa nova era? Qual será a nossa função? Ora… manter as informações livres. Se você ainda não sacou, vou te ajudar. Vá até a torneira mais próxima e pense: "Por onde a água viaja até chegar aqui?" É… por um cano. As informações também precisam de um cano para fluir e adivinhe só, esse cano é você!

Quebrar essa corrente humana é o pior dos pecados nessa nova religião. Pecado esse passível do pior castigo de todos: a morte. Mas estou falando da morte virtual. Não estar na internet significa não existir. Seja um servo dos dados, um obediente fio condutor de informações e tenha a permissão para fazer parte do paraíso: a internet. Então, seja um dataísta obediente e mantenha as informações circulando livremente por aí. Essa é a lei!

Conhecimento é conquista.

FELIPE SCHADT é jornalista, professor e cientista da comunicação pela USP


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