Opinião

Deuses e monstros

"Homens e Deuses" é outro ótimo filme para pensar no extremismo


ALEXANDRE MARTINS
ARTICULISTA RAFAEL AMARAL'''''
Crédito: ALEXANDRE MARTINS

Boa parte dos afegãos está desesperada. O Talebã voltou e, com ele, a possibilidade - ou quase certeza - de retrocessos típicos de regimes autoritários. Fundamentalista e nacionalista, o grupo avançou pelo Afeganistão, dominou cidades e sua capital, Cabul, em velocidade impressionante. Nem o presidente americano contava com tanto.

As imagens que pipocam na mídia levaram-me ao passado, à repetição da história e de suas imagens. Logo pensei em um filme obrigatório sobre o fundamentalismo e seu impacto em uma sociedade: "Timbuktu", de Abderrahmane Sissako. Outro local, outras tragédias. Ali, um grupo radical toma o poder. À força, impõe novas regras aos moradores.

Se o retorno do Talibã ao Afeganistão é a tragédia de um país inteiro, a presença dos extremistas em Timbuktu, cidade do Mali, África Ocidental, é, como propõe seu diretor, o microcosmo. Sissako prende-se aos efeitos da transformação no dia a dia das pessoas, no convívio que pouco a pouco se torna insuportável e causa torturas e até mortes.

Os soldados avisam, pelas ruas e vielas, que as mulheres devem usar meia e luva, além do conhecido véu. Uma delas ousa trabalhar sem luvas e é advertida. Ela reclama: não dá para vender peixes com luvas de tecido na mão. O homem insiste e a mesma, revoltada, pede então que ele arranque seus braços. Os próprios extremistas deparam-se com situações que não compreendem, às quais as regras impostas não cabem.

Os avisos continuam: músicas são proibidas na cidade, assim como o encontro de pessoas para algum tipo de confraternização e a presença, à toa, em frente às casas e sacadas. Qualquer insinuação - sobretudo feminina - é considerada crime. A certa altura, os radicais invadem a casa na qual um rapaz tocava violão. Ele tem de fugir pelos telhados.

A imagem que abre "Timbuktu" resume tudo: pendurados em uma caminhonete, em área desértica, os fundamentalistas caçam um cervo. O animal - representação do inocente, do mais fragilizado - corre para escapar das balas. Pouco depois, os mesmos soldados atiram contra estátuas de madeira, a arte "corrompida" e "pagã". Odeiam a liberdade que ela propõe. Ao fim das rajadas, vemos as peças parcialmente destruídas, mas ainda de pé. A arte resiste, diz
Sissako.

"Homens e Deuses", de 2010, é outro ótimo filme para pensar nos efeitos do extremismo. Em cena-chave, um dos monges do mosteiro cercado por radicais usa palavras do Alcorão para convencer o inimigo a não levar medicamentos guardados ali. Ao ouvir a passagem religiosa, o outro se convence de que tomar a mercadoria seria desfalcar toda uma comunidade.

Além de embates e fugas, há o drama de quem resolve ficar. Em "Timbuktu", a dor do pai de família que não tem mais vizinhos e é preso após matar um homem por acidente; em "Homens e Deuses", a ajuda a uma comunidade argelina que cresceu em torno de um mosteiro - a reboque das estranhezas e misturas produzidas pela colonização francesa.

Se mulheres são punidas com chibatadas por ouvir música ou não usar o véu, se homens são subjugados pela jihad ao negar suas filhas ao casamento arranjado, imagine o que aconteceria a alguém que ensina algo diferente do que prega um livro sagrado? Imagine, na Timbuktu de Sissako, o que ocorreria a um professor que ensina a Teoria da Evolução?

Fundamentalismo, ensinam a História e o cinema, não é exclusividade do islã. O Ocidente é palco de inúmeras barbaridades em nome de uma crença. Em 1925, nos Estados Unidos, um professor foi preso por ensinar a seus alunos a Teoria da Evolução, de Darwin, em uma cidade do interior. Os caipiras invadiram a sala de aula e o botaram em uma cela.

O caso, revivido no ótimo "O Vento Será Tua Herança", de Stanley Kramer, ficou conhecido como "o julgamento do macaco". O tribunal tornou-se arena para uma batalha entre luzes e trevas: de um lado o advogado de defesa vivido por Spencer Tracy; de outro, o promotor repleto de intolerância, como parte da cidade, interpretado por Fredric March.

De tão absurdos, temos dificuldade para crer em casos assim. No tribunal dos fundamentalistas, é a liberdade que senta no banco dos réus.

RAFAEL AMARAL é crítico de cinema e jornalista; escreve em palavrasdecinema.com


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