Opinião

Sinal vermelho para a humanidade

A lucidez que resta ao mundo deve se arregimentar para reverter a onda ecocida


divulgação
HOMENAGEM DOUTOR JOSE RENATO NALINI NO FORUM
Crédito: divulgação

Foi o que disse António Guterres a respeito das mudanças no clima após leitura do relatório elaborado pelos cientistas do IPCC, que monitoram as questões climáticas pela ONU. Para o Secretário-Geral da ONU, o ano de 2021 é o limite para a construção das nefastas usinas de carvão. Os países da OCDE devem eliminar o carvão até 2030 e os demais o farão até 2040.

Combustíveis fósseis representam o veneno que mata qualquer espécie de vida neste planeta frágil e indefeso. Inexplicável a insistência dos países periféricos em subsidiar essa indústria da morte. As energias renováveis constituem solução viável e o êxito da capacidade solar e eólica deve quadruplicar. Mas o que falta é juízo para os governos. E consciência para as populações que continuam a confiar em gestores inábeis, ignorantes e gananciosos.

Sinal vermelho significa já ter ultrapassado a fase do sinal verde e do amarelo. Agora é uma questão de sobrevivência. Nunca se chegou a tamanho grau de gravidade: os alarmes são ensurdecedores e as evidências são irrefutáveis: as emissões de gases do efeito estufa, produzido pela queima de combustíveis fósseis e desmatamento estão sufocando a Terra e submetendo a elevadíssimo risco de morte bilhões de humanos.

Para Guterres, o aquecimento global afeta todas as regiões do planeta, com irreversível perda de condições existenciais mínimas para qualquer espécie de vida. O que dizer das ocorrências extremas que fazem com que inundações insólitas na Alemanha e Bélgica sacrifiquem tantas vidas, incêndios na Califórnia, altas temperaturas no Canadá, seríssima crise hídrica no Brasil? Tudo isso ocorre por acaso? É mera coincidência?

Ainda se ouve a insanidade que levou países poderosos a deixarem o Acordo de Paris, por si só insuficiente para brecar a escalada do aumento da temperatura, que já ceifa milhões de vidas humanas em diversas partes do globo.

O momento é oportuno para a iniciativa privada acordar e suprir a insuficiência - ou a predeterminação ignominiosa de certos governos - para que a experiência humana sobre a superfície da Terra tenha continuidade e não se encerre de forma abrupta pela ignorância do próprio homem.

Deve-se invocar o lema inicial da ecologia: pensar globalmente, agir localmente. Cada indivíduo, cada cidade, precisa fazer alguma coisa contrária à dendroclastia predominante. Em lugar de cortar árvores, plantar árvores. Tentar substituir cada árvore cortada por dez outras. Pensando que elas levam tempo incrível para chegar ao estágio em que se encontravam quando tiveram o seu encontro com a motosserra ou com os correntões amarrados a dois tratores.

É urgente advertir governos imprudentes e até criminosos, de que a Conferência das Nações Unidas sobre mudança do clima em Glasgow, na Escócia, no próximo novembro - a CoP 26 - é talvez a derradeira oportunidade para fazer decisiva marcha-a-ré.

Tudo tende a piorar e rapidamente. Por enquanto parece existir uma via para amenizar a situação. Levar a sério a cultura ESG, reestruturar a economia para que ela seja circular e mais inclusiva, prestigiar e reverenciar o verde, assimilar as energias limpas e investir na pesquisa para a descoberta de novas matrizes energéticas.

O mercado sabe que ele desaparecerá se a inconsequência continuar a reinar. Agora não é mais o momento de procurar culpados, embora haja uma vistosa chance de exibi-los como signo da vergonha alheia. É doloroso para os amigos da natureza verificar que a democracia pode sujeitar a cidadania a derrotas clamorosas, pelas quais não se pode condenar ninguém, a não ser a própria incapacidade de detectar o que existe sob a carcaça eleiçoeira.

A lucidez que resta ao mundo - principalmente ao Brasil, tão carente dela - deve se arregimentar para reverter a onda ecocida, suicida e burra, que parece prevalecer sobre o bom senso. Outro ingrediente em falta no estoque brasileiro.

No trânsito, o sinal vermelho significa apenas que se deve parar, de forma a permitir a passagem de outros veículos. Na questão climática, o sinal vermelho é advertência para o caos e para a morte que virão a seguir. Continuaremos cegos e surdos, insensíveis a essa profusão de avisos?

JOSÉ RENATO NALINI é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras - 2021-2022


Notícias relevantes: