Opinião

Feijoada completa

Confessa-se admirador dos trabalhos de macumba


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COLUNISTA PROFESSOR FERNANDO BANDINI
Crédito: divulgação

Livro de crônicas de Matthew Shirts, "Feijoada completa" é título para quem está a fim de espairecer. Ou de pensar sobre nossos hábitos brasileiros de uma maneira leve e descontraída. Hábitos observados, analisados (e tantos deles assimilados) pelo mais brasileiro dos estadunidenses, o jornalista Matthew Shirts. Nascido na Califórnia, em 1959, estudou Ciências Sociais em Berkeley e fez pós-graduação em História, na Universidade Stanford. Veio ao Brasil pela primeira vez em 1976, num programa de intercâmbio para estudantes secundaristas. Ficou em Dourados, no Mato Grosso do Sul. Gostou do que viu e ouviu (mesmo sem falar o português). Voltou em 1979, para um curso na Universidade de São Paulo, agora conhecendo o idioma. Retornou a sua terra natal já pressentindo que seu caminho e destino era o Brasil. Quando pegou a trilha de volta para São Paulo, sabia que vinha para ficar. Casou-se com a brasileira Luli, protagonista em tantas de suas crônicas, e eles têm três filhos. O casal mora em São Paulo. Matthew é cronista e editor de revistas.

E vem de Sampa a maioria dos textos escolhidos. De cenas paulistanas, dessa metrópole que ele curte tanto. Outros rememoram o período mato-grossense, como da feijoada que dá título ao livro, quando conta de seu encantamento com o prato típico nacional. Primeiro com o colorido, depois com o sabor dos ingredientes tão bem combinados. Instalado em terras paulistas, lembra de um anão de gesso, de um metro de altura, que ganhou no sorteio mais micado da história, promovido por amigos num réveillon no litoral. Trouxe o trambolho de Ubatuba para São Paulo, para a varanda de seu apartamento. E depois, às escondidas, fez a viagem de volta para reinstalar o sujeitinho na casa de praia do amigo. Ou ainda quando fala do hambúrguer, carro-chefe da comida dos ianques, que se aclimatou por aqui de um jeito diferente. De acordo com o jornalista, as hamburguerias estrangeiras não colonizaram o gosto local em São Paulo. Fizeram surgir, por aqui, os hambúrgueres "gourmets". Ou ainda, despertaram o florescimento de um híbrido, como o restaurante por quilo, que incorpora a rapidez e o baixo custo das lanchonetes, mas preserva a distinção sagrada da cultura brasileira entre comida e lanche. Ainda no tópico gastronomia, há uma história impagável, quando resolve ele mesmo preparar um peru de Natal para a família. Cozinheiro nas repúblicas de estudante onde morou, diz-se um conhecedor do "básico", longe das exigências para o preparo de um robusto peru natalino. Segundo o autor, ainda hoje há controvérsias domésticas se a tal empreitada foi um sucesso ou um fiasco.

Confessa-se admirador dos trabalhos de macumba com os quais frequentemente encontra nas proximidades do cemitério de Pinheiros, bairro onde mora. Todos com frango ou peru (chegou a topar com despacho guarnecido por dois perus imensos, de cerca de 10 quilos cada um!). Mas um chamou-lhe ainda mais a atenção. Sem frango, composto de doritos, quibes e pizza - da qual levaram os pedaços e deixaram para a entidade somente a caixa de papelão engordurada. Como aponta o cronista, fizeram uma "McCumba".

Viajando frequentemente a trabalho, habituou-se em listar os pedidos inusitados que recebe a cada embarque, as famosas "encomendas" de conhecidos e familiares. A lista, segundo ele, vai de autopeças a vitaminas. Certa vez, um amigo que nunca tinha pescado na vida encomendou-lhe anzóis bem específicos, e enfatizou sem nenhum constrangimento que eram desses que "é mais fácil de achar nos Estados Unidos".

Mas não pense que Mat - como ele é carinhosamente chamado pelos amigos brasileiros - mostra-se metido ou afetado. Pelo contrário. A sacada bem humorada, a tirada precisa e a análise vêm embaladas em carinho explícito pela terra escolhida.

As crônicas foram originalmente publicadas entre 2011 e 2016 num semanário de circulação nacional e num grande jornal paulistano. Selecionadas por sua filha Maria, foram reunidas em volume, numa simpática edição de bolso da Realejo Livros, editora de Santos. Vale a pena conferir os textos desse gringo brasileiro.

FERNANDO BANDINI é professor de Literatura do Ensino Médio


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