Opinião

Couraça emocional

Os débeis dissabores tornar-se-ão letais e destruir-te-ão (...)


ALEXANDRE MARTINS
ALEXANDRE MARTIN ARTICULISTA
Crédito: ALEXANDRE MARTINS

Um dos braços de atuação da Medicina Tradicional Chinesa é o chamado Chi Kung, formado pela união dos ideogramas respiração e energia, criando a ideia de um processo que manipula a energia nos meridianos através de controle consciente da respiração.

Muitos são os usos dessa prática: revitalizar órgãos e vísceras, "limpar" os canais de energias chamadas "perversas", ou seja, formas impuras de energia do ambiente que acabam por se ligar em nosso corpo, gerando processos de doença.

Um dos usos mais famosos, no entanto, é o treino onde se estimula a circulação energética através de impactos progressivamente mais fortes nos pontos de acupuntura, ora feitos com golpes dos próprios punhos, ora com o auxílio de varas de madeira ou bambu. Este estilo mais "combativo" de Chi kung visava "calejar" a pele tornando-a mais resistente a traumas e impactos, muito útil em um eventual combate.

O nome desta técnica, quando traduzido, quer dizer algo como "camisa de ferro" ou mesmo "couraça de ferro", fazendo alusão à proteção que deveria propiciar ao seu praticante.

Gostaria de propor um exercício de Chi Kung diferente para que vocês, leitores e leitoras, pratiquem diariamente. Como outras formas deste exercício, este também atinge um corpo energético que possuímos, mas um algo mais sutil, igualmente importante: o nosso corpo emocional, formado pelo fluxo energético entre órgãos e vísceras, através dos meridianos principais, capaz de influenciar o comportamento do indivíduo e o funcionamento (ou fisiologia) do organismo.

Na minha prática diária de consultório vejo muitas consequências de ataques a este corpo emocional manifestando-se nos meus clientes: sensação de opressão torácica, descrita como se algo impedisse do ar entrar no pulmão; sensação de "nó na garganta" como se algo estivesse parado, sem nem entrar e nem sair; sensação de tremor constante, internamente, invisível à inspeção do médico.

Ao investigar de onde surgiram estes sintomas, é fácil identificar uma decepção com alguma atitude de algum parente, uma mágoa por alguma resposta ríspida de alguém que é de grande consideração ou mesmo um fato noticiado na televisão para o qual o desfecho foi contrário ao esperado, gerando indignação e às vezes até ódio.

Como podemos nos proteger destes ataques e evitar que nos sintamos apunhalados por aqueles que, mais cedo ou mais tarde, têm seus rompantes de emoção à nos atingir?

O famoso poeta e romancista Lewis Carroll, autor de As aventuras de Alice no País das Maravilhas, que eu saiba, teve pouco ou nenhum contato com a cultura e métodos orientais, mas neste tipo de Chi Kung de "couraça" emocional, ele poderia dar aula. Limito-me a humildemente transcrever parte do diálogo onde o coelho branco explica a Alice o porquê dele, apesar de atraído por ela, não poderia amá-la verdadeiramente:

(...) Nem sempre serás amada Alice, haverá dias em que os outros estarão cansados e aborrecidos com a vida, terão a cabeça nas nuvens e irão magoar-te.

Porque as pessoas são assim, de algum modo sempre acabam por ferir os sentimentos uns dos outros, seja por descuido, incompreensão ou conflitos consigo mesmos.

Se tu não te amares, ao menos um pouco, se não crias uma couraça de amor próprio e de felicidade ao redor do teu Coração, os débeis dissabores causados pelos outros tornar-se-ão letais e destruir-te-ão(...)

O Amor próprio é que caleja o coração para os dissabores da vida, primeiramente. Ele é capaz de manter o livre fluxo de energia que irradia de forma constante, como um rio que corre calmo e certo que o seu trajeto não pode ser interrompido pelo que vem das suas margens. Ofensas, tentações e decepções são notadas, mas não alteram tal fluxo pois a pessoa, antes de mais nada, se conhece e gosta do que vê.

Esse tipo de irradiação energética, quando percebida, denota que o indivíduo é maduro o suficiente para viver um relacionamento sem nele se afogar perdendo a própria individualidade e, por consequência, as chances de ser feliz.

Convido a todos os estimados leitores a prática diária, para benefícios incomparáveis à saúde!

ALEXANDRE MARTIN é médico formado pela Unicamp e especialista em Acupuntura e Osteopatia


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