Opinião

Solidão e desamparo

Sabemos que solidão não se refere ao estado de não estar acompanhado


ALEXANDRE MARTINS
ANA FOSSEN_ARTICULISTA
Crédito: ALEXANDRE MARTINS

Tenho escutado com frequência que as pessoas se sentem solitárias. As narrativas são variadas e um tanto difusas, pois partem de pessoas que reconhecem que, pese ao caos instalado pela pandemia, suas vidas estão seguindo por trilhos favoráveis. As justificativas são quase convincentes. Estávamos em suposto isolamento, as relações mais do nunca estavam mediadas pelos meios virtuais, os encontros sociais um tanto restritos, as divergências ideológicas causando separações, os laços da modernidade já muito fluídos se derretendo nas imagens de falsa felicidade das redes sociais, mas nada disso me convenceu de que, a isto, poderíamos nomear solidão.

Há tempos sabemos que solidão não se refere ao estado de não estar acompanhado, de não fazer parte de uma família ou grupo, ou mesmo, de não ter um amor para chamar de seu. Solidão é um estado do ser, relativo a tudo aquilo que fazemos, pensamos e sentimos e que nunca podemos transferir ou dividir com outrem. Um estado mais além da introspecção, provavelmente um momento no qual nos deparemos com o fato de que nosso ser não é tão compacto e constante quanto gostaríamos. A diversidade e os detalhes de cada momento vivido, ainda que sejam uma repetição, impedem que sejamos sempre os mesmos. Isso é solidão, porque ninguém pode viver nada no seu lugar. Ali, onde existe um ser humano, muito pouco pode ser transferido. Por isso, minha hipótese é de que não estamos mais solitários, uma vez que essa condição do ser é estrutural.

Assim sendo, formularei uma outra hipótese. Na verdade, acredito que estamos desamparados e por isso temos essa impressão angustiante de estarmos sozinhos.

Defino desamparo como um movimento que vai da esperança à frustração, passando pelo amor e pelo ódio. Quando me refiro à esperança faço menção a constante espera humana por um estado nirvânico ou mesmo por um messias. Esperamos por um estado ou por alguém que nos salve de forma gloriosa e milagrosa dos estados de sofrimento que nos são constituintes. É assim que, amamos ou odiamos ideias e pessoas, porque elas podem preencher mais ou menos completamente os requisitos messiânicos. E corroboro esta colocação com o aumento dos radicalismos religiosos e da procura por práticas e filosofias de vida que poderiam encaminhar o ser humano a estados de não sofrimento. Nunca se buscou tanto as práticas meditativas, budistas e de ioga como nos últimos anos. E com isto, não digo que tais práticas não sejam benéficas, mas não são da ordem dos milagres que tanto desejamos, pelo contrário, até onde conheço, requerem tanto autoconhecimento e esforços quanto as terapias convencionais. Com esta mentalidade chegamos à frustração, uma vez que a vida é feita de poucos milagres. Nada, nem ninguém virá nos salvar. Teremos que construir uma solução para cada uma das angústias que a vida nos trouxer.

Sem embargo, aprecio muito algo que essas filosofias pregam. Elas nos ensinam que fazemos parte de um Todo e que é a partir da consciência disto que devemos nos mover na vida, respeitando cada detalhe que esta totalidade pode nos oferecer, inclusive cultivando um certo respeito por si mesmo, que difere do egoísmo, pois ele é construído a partir desta ideia de sistema organizado. Ou seja, insisto na necessidade de nossa participação e entendimento sobre o que é individual e o que é coletivo. O que é individual, não é o mesmo que exclusivo ou narcísico. O que é coletivo engloba um estado de coisas que pode ser compartilhado. Convido a todos a pensarem sobre como desfrutam, na atualidade, de sua individualidade e como compartilham suas experiências. A pandemia não deve ser usada como desculpa, porque ela nos permitiu estar em vários lugares sem sairmos de casa.

Por tanto, sofremos de desamparo e não de solidão. E, enquanto esperarmos por milagres nos sentiremos desamparados, que acredito ser muito mais angustiante que a solidão.

ANA CLÁUDIA FOSSEN é psicóloga e psicanalista, graduada em Psicologia pela USP e pós-graduada em Psicologia e Filosofia pela Universidade Complutense de Madri-Espanha


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