Opinião

E a fome, a inflação, o apagão?

É inadmissível agir na política como se fôssemos uma torcida de futebol


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Miguel Haddad
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Conforme dados divulgados no final de julho pela Oxfam, uma confederação de 19 organizações sociais de quase uma centena de países, a fome no Brasil e no mundo pode matar 11 pessoas a cada minuto, mais do que a taxa da covid-19 que, entre países como o nosso, é de sete por minuto.

O boletim Focus, do Banco Central, divulgado na semana passada, mostra que a inflação continua a subir no Brasil e está agora em 7,11%. É a vigésima elevação consecutiva da projeção.

Quanto à questão da crise na geração de energia elétrica em razão da seca prolongada - segundo previsões poderá vir a ser a maior de que se tem notícia - mesmo com todas as termelétricas funcionando com o máximo da sua capacidade, 24 horas por dia, além das demais fontes alternativas, será difícil não haver racionamento de energia e apagões.

Poderíamos listar ainda, na sequência dos problemas reais e imediatos que nosso País enfrenta, numerosos outros, alguns de igual monta, como as consequências do atraso na vacinação, as variantes da covid-19 e o ritmo acelerado da perda de biomas, com a devastação recorde da Floresta Amazônica, a seca do Pantanal e os incêndios do Cerrado.

A questão, obviamente, não é fazer um rol dos nossos problemas, mas indagar seriamente por que continuam a aumentar, sem que sejam tomadas providências efetivas, reais e duradouras, para enfrentá-los. Já convivemos, em maior ou menor escala, com todos eles e, em alguns casos, como a inflação, conseguimos derrotá-los. Em outros, como o desmatamento da Amazônia, conseguimos contê-lo. Além disso, no Brasil há quase 20 milhões de pessoas passando fome, segundo dados do Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19, feito pela rede Penssan. E a extrema pobreza se intensificou, triplicando de 4,5% para 12,8% da população.

Por que isso acontece? Por que as prioridades de fato do nosso País, do nosso povo, não são as prioridades do Estado? Por que o Brasil se tornou uma nação disfuncional?

A razão principal é a profunda divisão da sociedade brasileira. A polarização política levou parte da população a dedicar sua energia social ao combate da facção oposta, buscando, a praticamente qualquer custo, tornar-se hegemônica. Como disse Gandhi, "olho por olho e o mundo acabará cego".

Em plena pandemia, as pessoas se digladiam em torno de temas secundários, geralmente ligados à questão eleitoral - é preciso derrotar o inimigo, só isso importa - consumida por um discurso de ódio que, ao invés de construir um consenso, concorre para a deterioração do espaço político, com graves consequências para nosso valor maior, a Democracia.

A nossa esperança é que esses dois extremos sejam apenas os mais estridentes, mas não constituam, de fato, o que sente e pensa a maioria da população. É verdade que o povo brasileiro é conhecido por sua paixão, como torcedor, mas é inadmissível pensar que se possa agir na política - que deve se guiar pelo bom senso, pela busca de soluções efetivas para os problemas reais da população - como se fôssemos uma torcida de time de futebol. A cidadania, que tem o poder de escolher os caminhos que a Nação deve trilhar, é responsável pelo nosso futuro, pelo mundo em que vão viver nossos filhos e netos. Suas decisões de voto e de apoio político devem ser assentadas no bom senso, com o mesmo cuidado que um trabalhador escolhe o seu instrumento de trabalho.

No ano que vem teremos eleições. Poderemos optar pela continuação da divisão nacional, que vai produzir os mesmos resultados nefastos causados por essa polarização.

Ou poderemos reagir a esse estado de coisas e buscar o caminho da sensatez, livre do ódio, que procure reunir ao invés de dividir, construir ao invés de destruir.

Isso requer maturidade política e compromisso com a construção do nosso futuro. As prioridades nacionais não podem ser deste ou daquele grupo, desta ou daquela facção ou, muito menos, de "fulano" ou "sicrano".

Na política nacional só pode existir uma única prioridade: a que é de interesse do Povo Brasileiro.

MIGUEL HADDAD
é ex-deputado federal


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