Opinião

Ninguém está a salvo

O município é entidade federativa e tem obrigação de zelar pelo meio ambiente


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HOMENAGEM DOUTOR JOSE RENATO NALINI NO FORUM
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Quando ouviu o relatório do IPCC a respeito do clima, Inger Andersen, secretária executiva do Pnuma, o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, exclamou: "A mudança do clima está aqui, agora. Nós também estamos aqui, agora. Se não agirmos, quem agirá?".

Essa é uma indagação que todos devem se fazer. O Brasil principalmente, que teria tudo para continuar a ser a esperança do planeta e preferiu queimar florestas, invadir áreas públicas, exportar madeira de lei extraída de reservas, desrespeitar demarcações indígenas e se tornar o legendário "pária ecológico" do século 21.

"Em um planeta aquecido, ninguém está a salvo." "Devemos tratar as mudanças climáticas como uma ameaça imediata, assim como devemos tratar todas as crises conectadas da natureza e da perda de biodiversidade, e da poluição e do lixo", continuou a aflita secretária: "Não podemos desfazer os erros do passado. Mas esta geração de líderes políticos e empresariais, esta geração de cidadãos conscientes pode consertar as coisas", seguiu a cientista dinamarquesa. Excessivo otimismo? A se considerar o que está acontecendo estes dias, com milhares de incêndios, é evidente que não se pode nutrir qualquer esperança.

Em relação ao Brasil, a liderança política ainda atuante é a subnacional. Governadores dos Estados - que receberam há pouco um americano da equipe de John Kerry, indicado por Joe Biden para cuidar da questão climática - e, principalmente, os prefeitos. São estes entes subnacionais que precisam assumir a batuta e mostrar ao planeta que nem tudo nesta terra é negacionismo, obscurantismo, ceticismo e tosquice.

Os Estados-membros precisam recorrer aos investidores internacionais e oferecer projetos viáveis, factíveis, potencialmente exitosos. Eles existem. Basta uma ação coordenadora de um grupo consciente de que o conceito ESG é algo que tem o condão de oferecer uma alternativa ao inferno em que a ignorância insana está lançando a humanidade.

O município é entidade federativa e tem obrigação de zelar pelo meio ambiente em seu território. Não apenas preservar o pouco restante, mas inculcar uma cultura de reflorestamento, para fazer frente à devastação patrocinada pelos dendroclastas que assumiram funções que só existem e só se justifica sejam pagas pelo povo, para realizar exatamente o contrário: tutelar a natureza.

"Pela primeira vez, o IPCC destaca a importância dos poluentes de curta duração e altamente danosos, como o metano que, sozinho, responde por 25% do aquecimento que experimentamos atualmente", disse Fred Krupp, presidente da organização não governamental (ONG) americana Environmental Defense Fund (EDF). Ele destacou a necessidade urgente de se reduzir a poluição por metano em setores como petróleo e gás. "Quando se trata do nosso planeta superaquecido, cada fração de grau é importante e não há maneira mais rápida e viável de diminuir a taxa de aquecimento do que cortando as emissões de metano causadas pelo homem", continuou Krupp.

A insensatez, que desmantela todas as estruturas relacionadas com a proteção do ambiente, é uma afronta ao que a ciência climática recomenda. Favorecer combustíveis fósseis e incentivar o desmatamento criam condições perfeitas para a intensificação de maiores eventos climáticos extremos. Isso põe em risco a saúde e a incolumidade física de milhões de brasileiros.

São as cidades que têm condições de provar que o Brasil não escolheu o caminho da catástrofe e que existe inteligência no âmbito desses espaços que são os mais importantes para a vida pessoal de cada indivíduo. Nunca me canso de invocar Franco Montoro: as pessoas não nascem na União, nem no Estado. Nascem nas cidades!

Nossa cidade merece mais do que alinhar-se ao extermínio da biodiversidade, ao desmatamento, à poluição generalizada, a esse nefasto suicídio coletivo em que a ignorância e a ganância mergulharam a Amazônia, a Mata Atlântica e outros biomas.

O futuro só existirá se agirmos agora. Com a palavra as gestões municipais. De que lado estarão?

JOSÉ RENATO NALINI é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras - 2021-2022.


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