Opinião

Como se tornar um tirano

O autoritarismo sempre está à espreita quando as coisas se tornam difíceis


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SISTEMA PENITENCIARIO FABIO JACYNTHO SORGE
Crédito: divulgação

A plataforma Netflix tem uma interessante série sobre o autoritarismo, chamada "Como se Tornar um Tirano". Em episódios curtos e com abordagem irônica, o programa traz um "manual" para se atingir o poder absoluto e mantê-lo.

De início, vale ressaltar a lição histórica, já que são citados diversos ditadores do século XX, com episódios específicos sobre Adolf Hitler, Saddam Hussein, Idi Amin Dada, Joseph Stalin, Muammar al-Gaddafi e na dinastia Kim (Kim Il-Sung, Kim Jong-il e Kim Jong-un). Outros líderes autoritários como Benito Mussolini, Pol Pot e Francisco Franco são mencionados, mas sem episódios específicos.

O capítulo sobre Adolf Hitler trata da tomada do poder, abordando a aposta que ele fez nos ressentimentos da população, em especial na eleição de culpados, no caso os judeus. É fácil apontar um bode expiatório e manipular a população pelo ódio. Também é citada a identificação com a população, na figura do "homem do povo" que, pela sua sintonia com os anseios populares, poderia representar a população sem intermediários. Afinal, para que políticos?

Já na parte referente à Saddam Hussein, chamada de acabe com os rivais, temos referência aos "métodos" dele para manter o poder, sendo importante lembrar que ele foi o mandatário do Iraque por 24 anos. Em primeiro lugar, Saddam forçou a aposentadoria do presidente, para assumir o comando do país em 1979, executou membros do seu partido, os quais julgava que poderiam lhe trair, determinou a execução de seus genros, bem como de qualquer um que julgasse que poderia lhe ameaçar.

O terceiro episódio traz a história do ditador ugandense, Idi Amin Dada, intitulado rei pelo terror. Ponto comum na maioria das ditaduras é a criação de um polícia política, bem como a prisão e tortura de opositores, em nome do bem do país. Idi Amin recorreu a este método, tendo prendido e torturado sistematicamente seus adversários. Também adotou a política do bode expiatório, ao expulsar os imigrantes asiáticos do país, especialmente os de origem indiana, com a distribuição de suas propriedades aos ugandenses. Por fim, com a queda na sua popularidade, tentou recorrer a outro truque clássico dos tiranos, juntar o país, em uma guerra, neste caso declarada contra a Tanzânia. A ditadura argentina tentou o mesmo expediente com a Guerra das Malvinas. No caso de Idi Amin, ele foi derrotado, destituído do governo, passando a viver no exílio na Arábia Saudita até a sua morte em 2003.

Na sequência, temos um episódio sobre Josef Stalin, intitulado controle a verdade. O ditador soviético foi a inspiração para o grande irmão da obra "1984" de George Orwell, sendo seu o rosto do personagem. Stalin buscou controlar a verdade, sendo que nada poderia ser dito contra ele ou o seu governo, que trazia os fatos vinculados pelo jornal Pravda (que, ironicamente, significa "verdade", em russo). O líder chegou ao ponto de alterar o passado, apagando antigos aliados tornados inimigos de fotos antigas.

O penúltimo episódio é dedicado ao líbio Muammar al-Gaddafi, que permaneceu no poder em seu país por 42 anos, com o interessante título, crie uma nova sociedade. Foi exatamente o que ele buscou fazer, apostando no nacionalismo líbio, chegando a banir produtos estrangeiros, e se engajou em projetos monumentais de irrigação do deserto, por exemplo, para alçar a própria imagem.

Por fim, ou não, já que a dinastia Kim ainda está no poder na Coreia do Norte, temos o episódio governe para sempre. Retratando três gerações de ditadores, deste regime que se iniciou em 1948, com Kim Il-Sung, o capítulo foca em como ele e, principalmente, seu filho construíram a imagem de deuses sobre a terra, que tem origens míticas envolvendo o nascimento em montanhas sagradas, por exemplo. Em relação a Coreia do Norte, uma última lição é apresentada: a aquisição de armas nucleares, que marcaram a cartada final para a permanência da família no poder, através da ameaça nuclear.

Com um ar descontraído e irônico, a série discute a ascensão e queda dos tiranos, fazendo com o que espectador conheça os truques, técnicas e trapaças, aplicados por líderes autoritários para chegarem e se manterem no poder. Dois pontos são fundamentais e merecem ser repetidos, o autoritarismo sempre está à espreita quando as coisas se tornam difíceis e costuma apostar no ódio como estratégia de manipulação. Resta à população não cair na lábia dos tiranos.

FÁBIO SORGE é defensor público do estado de São Paulo e coordenador da Regional de Jundiaí


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