Opinião

Doutor "Honoris Causa"

Por mais de 3 décadas inspirou ações que tiveram repercussão internacional


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MARGARETE ARILHA NOVA
Crédito: DIVULGAÇÃO

E agora uma surpresa: o Doutor Honoris Causa é entregue pela Unicamp, com grande orgulho de todos e todas, a uma mulher, a professora e doutora Elza Berquó. Desde 1971, é a primeira vez que essa Universidade concede o prêmio a uma mulher, e o faz a uma mulher que chega perto de seus 95 anos, com extrema lucidez, coerência de vida, energia de pensamento e inspiração de futuro demógrafa, dedicou sua vida a mostrar ao país a importância desse conhecimento, e a se dedicar e criar gerações inteiras de profissionais comprometidos e comprometidas com o conhecimento dos passos e movimentos de uma população, e de promover e construir cenários mais alvissareiros para o país e para o mundo. Tendo optado por uma vida sem filhos, sempre se refere carinhosamente a essa comunidade de alunos/as/profissionais, como a comunidade de seus filhos e filhas.

Em cerimônia especial, a outorga do título marca um feito enorme para o país. Ao lado de nomes como Oscar Niemeyer, Celso Furtado, Pietro Maria Bardi, Antonio Candido de Mello e Souza, a cientista que marcou o desenvolvimento da Demografia na Universidade e no país para sempre estará presente. Professora emérita da Faculdade de Saúde Pública, criou, desenvolveu e fortaleceu a história através das visões interdisciplinares, essa a marca da Demografia produzida no NEPO - Núcleo de Estudos de População Elza Berquó da Unicamp. Presente nos debates populacionais, na articulação e execução do olhar multidisciplinar, mostrava de maneira impecável em cada um de seus discursos, vibrantes, suas pesquisas, suas reuniões - não importava qual era o palco ou cenário - a necessidade de aproximação com a sociedade, característica incorporada em vários de seus projetos e ações técnicas e políticas. Sempre se aproximou dos movimentos sociais, e nos formou nessa perspectiva. De maneira particular dedicou sua vida a pensar com muita inovação e compromisso, na situação das mulheres, olhando para as condições em que suas decisões sexuais e reprodutivas eram tomadas, se com equidade e justiça social.

Foi membro da Comissão de Saúde do Conselho Estadual da Condição Feminina do Estado de São Paulo e trouxe a público o instigante trabalho sobre como as mulheres brasileiras estavam sendo obrigadas a usarem a esterilização como recurso contraceptivo, submetendo-se a cesarianas desnecessárias ou a profissionais que abusavam das necessidades e demandas destas mulheres. Aos poucos as decisões reprodutivas ganham condição de cidadania e passam a ser vistas como campo de direitos e assim traduzidas em inúmeros espaços e programas de políticas públicas, como foi no Brasil o PAISM - Programa de Assistência Integral a Saúde da Mulher.

Com visão instigante, seu trabalho resultou inclusive na criação da Comissão de Direitos da Reprodução do Ministério da Saúde, que congregou e associou ao final da década de 80. Uma articulação de um conjunto de profissionais da mais alta competência para discutir e apreciar e monitorar o andamento desta iniciativa no plano federal. Ao início dos anos 90, tornou-se central abrir espaços no âmbito da sociedade civil, criando-se assim o trabalho da Comissão de Cidadania e Reprodução. Por mais de três décadas inspirou ações que tiveram inclusive repercussão internacional, como foi o caso de sua participação na Conferência Internacional de População e Desenvolvimento do Cairo, em 1994, quando colaborou intensamente nos processos de negociação de texto que vieram a garantir posteriormente a definição de direitos reprodutivos como pano de fundo para a ação de governos nacionais, incluindo o aborto legal.

A radicalidade e a força são componentes de seu compromisso impecável com a transformação na direção da justiça. Seus sonhos, sua generosidade, sempre compuseram o arco maior de sua vida até hoje. Não hesitou em falar até mesmo da reprodução assistida, do direito de viver e de decidir com vigor, da solidão e da morte. Não hesita em se definir sim como uma visionária, como uma mulher que quebrou tabus. Pelas Mulheres. Pela Democracia. Pelo Estado Laico. Pelos Direitos Humanos.

MARGARETH ARILHA é psicanalista e pesquisadora do Nepo (Núcleo de Estudos em População Elza Berquo), da Unicamp


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