Opinião

Um amigo, um tesouro!

Amigo também dá o primeiro passo na direção do outro em busca de amá-lo


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ARTICULISTA DOM VICENTE
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"Amigo fiel é poderosa proteção: quem o encontrou, encontrou um tesouro"

 (Eclo 6,14).

Queridos leitores e leitoras: penso que a reflexão sobre quem nos circunda, quem marca a nossa vida e como nós marcamos a vida daqueles por quem nós passamos e nela fazemos a diferença é bastante oportuna para este momento de pandemia em que vivemos. E como tem sido este tempo novo na nossa vida? Há poucos dias tive o privilégio de ouvir de um casal a bela frase: "Este tempo que tivemos que ficar mais juntos, foi para nós uma grande bênção. Conhecemo-nos mais, aproximamo-nos mais e pudemos cultivar ainda mais o nosso amor". Tomara que muitas outras famílias consigam identificar e transformar dia por dia os ambientes comuns em espaços sagrados, onde as pessoas possam se olhar, se admirar e ajudar-se reciprocamente.

É exatamente à luz da partilha desse casal que devemos olhar para os nossos relacionamentos e, sobretudo, para os nossos amigos. O que temos feito para cultivar os nossos laços de amizade? O que significa para mim um amigo? Como eu tenho sido amigo dos meus amigos? Eu acredito que um amigo de verdade não espera que a iniciativa seja sempre do outro. O amigo também dá o primeiro passo na direção do outro em busca de amá-lo a qualquer custo. Santa Madre Tereza de Calcutá dizia: "O amor, para ser verdadeiro, tem de doer. Não basta dar o supérfluo a quem necessita, é preciso dar até que isso nos machuque". Ou seja, não existe amor confortável. Todo amor, de alguma maneira, nos faz sofrer em algum momento. E penso que essas palavras também se aplicam ao sentido da verdadeira amizade.

Estamos num tempo em que precisamos resgatar e restaurar a beleza da amizade. Imaginem que, milênios atrás, houve uma inspiração divina que fez chegar até nós a certeza de que: "Amigo fiel é bálsamo de vida" (Eclo 6,16). Sendo assim, quando falamos sobre um amigo, sobre a amizade, estamos falando de um dos temas mais sensíveis à existência humana. É claro que existem outros temas muito profundos. Mas a amizade é algo que precisa ir além das formalidades e dos interesses pessoais. A amizade é sinônima de gratuidade, por isso está intimamente ligada ao amor, pois "o amor é magnânimo, é benfazejo; não é invejoso, não é presunçoso nem arrogante; não faz nada de vergonhoso, não é interesseiro, não se encoleriza, não leva em conta o mal sofrido; não se alegra com a injustiça, mas se regozija com a verdade. Ele tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta" (1Cor 13,4-7). Podemos afirmar que a amizade, tal qual o amor, jamais passará.

A amizade é algo tão profundo que Jesus chegou a nos chamar de amigos: "Eu vos chamo amigos, porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi de meu Pai" (Jo 15,15). Chorar as lágrimas do outro; recolher os "cacos" junto com o outro; vibrar com as alegrias do outro e sentir as suas fadigas... isto é a verdadeira amizade. Pois o amigo sincero não deixa de sê-lo nem que seja motivo de zombaria ou de brincadeiras oportunas ou inoportunas.

Amizade! Palavra poderosa e, ao mesmo tempo, desinstaladora! Palavra, ou melhor, postura de vida que exige, que repreende e que incomoda; atitude que nos "obriga" livremente a um êxodo de nós mesmos, a uma saída de um "meu eu" ensimesmado em direção ao outro, ao diferente. Sabemos que não é fácil ser amigo. É necessário descobrir a medida certa entre o estar perto e a invasão de privacidade, entre o aconselhamento e a imposição, entre a paciência e a indiferença. Sendo assim, uma das posturas imprescindíveis nas relações de amizade é a discrição: precisamos ser amigos nem demais e nem de menos, nem tão longe nem tão perto, mas na medida mais exata que pudermos. No fundo, a relação entre amigos se estabelece, talvez, como a postura que o filósofo Maimônides (1138-1204) apregoava: "Não caminhe na minha frente, porque talvez eu não possa segui-lo. Não caminhe atrás de mim, porque talvez eu não possa guiá-lo. Caminhe ao meu lado e seremos amigos". Por mais difícil que seja, não desista de seus amigos, pois um amigo verdadeiro será sempre um tesouro!

DOM VICENTE COSTA

é bispo diocesano de Jundiaí


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