Opinião

Depois de 10 milhões de m2 de matas queimadas

O Conselho Regional dos municípios  do nosso AUJ não está atuante


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EDUARDO PEREIRA ARQUITETO
Crédito: divulgação

Incríveis lugares de natureza exuberante estão acessíveis em Jundiaí, especialmente na Serra do Japi, onde a Hanna Traldi promove essa fruição com êxito e reconhecimento. Seu restaurante Montanhas do Japi é modelo de sustentabilidade, gastronomia boa e interação com o meio ambiente. Agora, Fernando Oliveira está fazendo o Bike Hotel, que traz ao ciclista a experiência na Serra como uma grande possibilidade de desdobramento além da curtição e do esporte.

Sobre isso fica uma questão que pode despertar uma ideia de prevenção de incêndio através da recepção desses ciclistas no trabalho de pertencimento, que poderiam ser voluntários, zeladores da serra como contrapartida pela fruição do ambiente excepcional.

É discutível a participação  responsável de quadros fora da competência da polícia ambiental e brigadas de bombeiros, mas, na falta desses, podem ajudar, porque se não houver uma ampliação nesse cuidado não vai dar certo para a salvaguarda do que restou dos extensos incêndios.

Preservar e fazer os acessos necessários para controle em locais de incêndio é uma saída que poderia ser considerada em projetos de conservação ambiental. Óbvio que um projeto estratégico é importante como medida de monitoramento, porém comunicação rápida em grupos de proprietários, ciclistas e de outros usuários e defensores em rede de WhatsApp podem contribuir em muito com policiamento florestal. Nessa grande extensão de mata, que engloba municípios que sequer têm brigadas de combate a incêndio, alternativas precisam ser construídas.

O Condema tem feito sua parte, mas o Conselho Regional dos municípios do nosso AUJ não está atuante. Segundo a vice-presidente do Condema, Silvia Merlo, nunca receberam convite para participar de nenhuma reunião ou de consulta acerca do tema.

Os Conselhos precisam participar da gestão desse moribundo AUJ. Um projeto regional, atualizado constantemente, para que não ocorra nunca mais um incêndio dessas proporções é urgentemente necessário. Recuperar o pertencimento sobre a Serra também. E importante os proprietários saberem da responsabilidade que precisam ter sobre a área que cuidam. Não dá pra conservar grandes extensões sem um plano estratégico muito bem elaborado e sem a participação dos fazendeiros, usuários e proprietários desses biomas e matas tombadas pelo CONDEPHAAT. 

Ações que distanciam o público em nome da defesa do ambiente não podem ser bem-vindas. Considero uma espécie de censura ou uma ação que veda o conhecimento. Impedir o acesso é uma medida que não considero saudável. Impossível manter o que não conhecemos ou que não podemos conhecer. Ao contrário, divulgar a excepcionalidade do patrimônio precisa acontecer sempre.

O governo do estado numa providencial, mas oportunista atitude, inicia o que deveria dar continuidade. As ações regionais de preservação ambiental já estão previstas há décadas.

Na Região do Grande ABC , desde 1990, há consórcio intermunicipal ativo para construir um planejamento regional capaz de gerir e preservar o território que são tecidos contínuos, com possibilidade de recursos federais e internacionais.

A legislação que institui a AUJ manda o conselho regional das cidades atuar na preservação das áreas de matas. Mas não o fez, apesar de instituído desde 1998 e com lei de 2011. Tudo previsto ali, mas nada feito.  A recente lei municipal não contempla as extensões que são características de matas contínuas nos municípios vizinhos.

Recentemente, o governador Doria veio a Jundiaí anunciar recursos da ordem de 15 milhões para o desenvolvimento de uma região metropolitana instaurada acima de uma já existente aglomeração urbana. Em ambas, as atribuições são praticamente as mesmas, mas muda-se o nome para consagrar a atitude de Doria como inovadora?

O governador esquece que é de responsabilidade dele cuidar da Serra, que é um bem tombado desde 1980 e que tem que manter inteira e, se isso não acontecer, tem que fazer acontecer. Assim o dinheiro especulado para os desenvolvimentistas na região seguramente deveria estar aplicado na garantia da sobrevivência dessas matas de sua responsabilidade.

EDUARDO CARLOS PEREIRA
é arquiteto e urbanista


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