Opinião

Carta aberta de uma banda independente

Rolavam concessões e camuflávamos as canções autorais no meio das covers


ALEXANDRE MARTINS
FELIPE DOS SANTOS SCHADT ARTICULISTA
Crédito: ALEXANDRE MARTINS

Eu tenho uma banda de rock independente. Como é difícil. Sem investimento, com pouca ajuda, raríssimos espaços e quase nenhum reconhecimento, sobreviver tentando fazer sua música de forma autônoma é desafiador, desgastante e, ao mesmo tempo, delicioso. Vou tentar explicar isso contando o que eu já vi e vivi em 12 anos como músico independente.

E a grande maioria das bandas que eu conheço começaram na garagem. Isso aconteceu com a minha banda. De 2009 a 2014, tínhamos um pensamento muito limitado, ou seja, queríamos fazer algum tipo de música sem nenhum tipo de compromisso maior do que se reunir uma vez por semana para tocar covers. Essa estratégia tinha um porquê: queríamos tocar. E percebemos rápido que as casas de shows da região de Jundiaí só davam espaço para as bandas com repertório variado e consagrado. De "Ana Julia" a "Exagerado", a gente ia tentando se enfiar no circuito musical da cidade.

Só que eu sempre fui muito inquieto com isso. E eu sempre tive como inspiração na música grandes letristas. Eu queria fazer as minhas próprias canções. Quando a gente recebeu nosso primeiro aplauso por uma música nossa, a chave virou e nos ligamos para o óbvio: para nós (que fique claro), ser aplaudido por uma música nossa é muito mais gostoso do que ser ovacionado por uma canção que não é de outra pessoa. Foi o primeiro passo para fora da garagem.

Aí você se tranca no seu quarto com um violão velho e desafinado, experimenta alguns acordes, coloca uma letra que traduz algum sentimento confuso e voilà! Uma música. Duas. Três! E aí vem o primeiro desafio: produzir essas músicas. Nunca havíamos ganhado dinheiro com a banda. Pagávamos 15 reais cada um por ensaio e, na hora de tocar em algum barzinho, a recompensa vinha em cerveja e porção de batata frita. Mas isso tinha ficado para trás. Os 15 reais se transformaram em 100 reais por cabeça para produzir uma música própria. Dinheiro esse que não seria recuperado tão cedo.

Depois de alguns meses no estúdio - e digo meses, por que não tínhamos dinheiro para bancar todas as músicas de uma vez e por isso demorava - era chegada a hora de procurar um lugar para tocar. "Vocês tocam o quê?", pergunta típica quando conseguíamos o contato de alguma casa de show. "Tocamos música própria" era o que respondíamos, mas o que os donos dos estabelecimentos ouviam era "Tocamos músicas que ninguém conhece ou queira conhecer". Pra não ter as portas fechadas, rolavam concessões, e camuflávamos as canções autorais no meio das covers.

Lembro de uma vez que resolvemos tocar mais músicas autorais do que covers. No dia seguinte, na página da casa de show que tocamos, vimos um comentário assim: "Fiquei decepcionada, a banda é até boa e a música deles é bacaninha, mas eu fui lá para ouvir cover e acabei ouvindo música que não conhecia a letra. Essa casa de show já foi melhor". Demoraria para voltarmos a tocar lá outra vez.

Fora tudo isso, a sua banda, de maneira independente - leia-se sem dinheiro e investimento -, precisa vencer nas redes sociais. Aí aparece toda sorte de gente dizendo que você precisa postar todos os dias, lançar uma música por semana e fazer todo tipo de coisa para chamar atenção. E se você não se rende a isso, cai no ostracismo e ainda é taxada como uma banda arrogante. "Onde já se viu? Aquela banda não quer fazer a dancinha do TikTok. Depois lança música e ninguém ouve e fica aí chorando". E tudo isso dentro de uma competição imaginária entre as bandas que elas próprias insistem em participar.

Ter uma banda independente é tudo isso, mas independente de qualquer coisa (desculpe o trocadilho), é algo que me faz muito bem. Compor, produzir e lançar uma música que represente algo para você ou para alguém é indescritível. Se vão ouvir ou não, aí é outra história.

Ah, e se você sentiu interesse, a minha banda se chama Genomma e acabamos de lançar uma música nova. E aqui em Jundiaí, tem várias bandas como a minha, só esperando você dar uma chance. Nesse 7 de setembro, um "viva!" às bandas independentes.

Conhecimento é Conquista.

FELIPE SCHADT é jornalista, professor e cientista da comunicação pela USP


Notícias relevantes: