Opinião

O que há para aprender com 'O Conformista'?

A arte exprime aquilo que se encontra reprimido em qualquer sociedade


ALEXANDRE MARTINS
ARTICULISTA RAFAEL AMARAL'''''
Crédito: ALEXANDRE MARTINS

Tenho falado muito sobre política nacional - aqui, em casa, com os amigos. Evito, não minto, voltar às mesmas teclas, aos mesmos assuntos. É difícil. O momento atual emite alguns sinais trocados: uma porção de gente pede por intervenção militar e pela derrubada de um poder constituído como se estivesse participando de uma libertação.

É bom ter memória: alguns tiranos tomaram o poder ou deram um autogolpe sob o argumento da busca pela liberdade, da preservação de valores. Deram uma banana para as instituições, sentaram no trono e dali só saíram mortos ou derrubados.

Com tanto barulho, chego até a pensar no quanto a normalidade pode ser boa. E o quanto foi. É cômoda, claro. Repenso, volto atrás: nada mais chato que a normalidade. Enquanto muitos querem ser diferentes, outros querem ser iguais. Leia-se: enquanto muita gente tem senso crítico e não segue a manada, há quem prefira viver no curral.

É o que ensina um dos filmes da minha vida, um daqueles que eu levaria para uma ilha deserta: "O Conformista", de 1970. É baseado em um livro de Alberto Moravia - o mesmo que, em 1976, a João Lins de Albuquerque, declarou que "a arte exprime geralmente aquilo que se encontra reprimido em qualquer sociedade" (no livro "Conversações"). O que ajuda a compreender porque há tanta gente - inclusive em altos postos da nossa República - que odeia a arte e o que a mesma abarca. Inesquecíveis as palavras de Moravia.

Bernardo Bertolucci apossou-se da obra e fez seu melhor trabalho, superior, inclusive, aos ótimos "Antes da Revolução" e "O Último Tango em Paris". Nela, acompanhamos o apático Clerici, interpretado por Jean-Louis Trintignant. Desalmado, declara-se facista. Não que acredite nas ideias dos que comandam a Itália de então, à sombra do Duce. Ele quer um bom cargo, um pai-estado para se agarrar, algo que lhe dê solidez.

Em "O Conformista", a política não se separa da psicanálise. Foi assim, também, no filme anterior de Bertolucci, o igualmente extraordinário "A Estratégia da Aranha". Aceitar as próprias raízes pode ser doloroso. O protagonista de "Estratégia" descobre-as e termina preso à cidade que reflete seu pai; o de "O Conformista" tenta negá-las e se vende aos fascistas.

Clerici é um ressentido, um impotente que nega seus desejos, cujo passado - a experiência sexual e violenta na infância, marcada pela tensão sexual com o chofer da família - dá pistas do que realmente o atormenta. Obediente, logo ele ganha uma missão: deve ir a Paris e matar seu antigo professor de filosofia, um intelectual comunista.

Ao chegar à França na companhia da esposa burrinha e sempre sorridente (Stefania Sandrelli), ele depara-se com a companheira do professor, o desejo em carne viva, beleza e atração na mulher consciente de seu espaço e tempo, alguém que usa calças e fuma entre homens, que tem opinião política e, claro, despreza o fascismo. Clerici cai de quatro. Ela, professora de balé, é vivida pela estonteante Dominique Sanda.

O que vem depois é uma cena de tango incrível com as duas mulheres - a esposa possível, a amante distante. O conformista estará sempre entre o desejo que não pode assumir e o papel que lhe foi reservado pelos outros, pelo poder dos trogloditas, pelos camisas pretas que se encravam na floresta para cumprir um ritual de morte, na cena mais forte.

Bertolucci, a partir de Moravia, mostra que os piores são os que não creem em nada, que se movem pela conveniência, pelo conforto e pelo poder. Aqueles que têm medo até do desejo, e de si mesmos. Não precisam sempre de um palco e do calor da massa. O bastidor, desde que forrado a benesses, é o espaço perfeito para essa categoria de parasita.

Enquanto alguns não fazem nada e se deixam cooptar, outros poucos tocam a banda. O Brasil atual está cheio de conformistas. Mas não sejamos ingênuos ou precipitados: estamos ainda distantes, felizmente, da Itália e do mundo que nos revela Bertolucci em sua obra-prima. Que a sanidade e o espírito crítico continuem por estas bandas. A arte também.

RAFAEL AMARAL é crítico de cinema e jornalista; escreve em palavrasdecinema.com


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