Opinião

Arendt, entre o mal e o amor


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COLUNISTA PROFESSOR FERNANDO BANDINI
Crédito: divulgação

Escrito pela sueca Ann Heberlein, “Arendt, entre o mal e o amor: uma biografia” conta a trajetória da ensaísta Hannah Arendt, uma das mais importantes pensadoras do século 20.

A biógrafa revela que não pretendeu “fornecer um retrato completo” de Arendt, mas concentrar-se em acontecimentos centrais, levantar as ideias “mais fecundas” e tentar inserir fatos e reflexões da biografada num contexto mais amplo. Hannah vivenciou a chegada ao poder do nazismo e escapou por pouco dos campos de extermínio. Foragida da Alemanha hitlerista, viveu na França e depois nos Estados Unidos. Analisou em profundidade as origens e características dos regimes totalitários (comunismo, fascismo, nazismo...), refletindo a respeito do Holocausto, daquilo “que nunca deveria ter ocorrido”.

Nascida na Alemanha, em 1906, de origem judia, Hannah estudou filosofia na universidade de Marburgo. Foi aluna e depois namorada do filósofo Martin Heidegger, um professor carismático, cujas aulas atraíam estudantes de todo o país. O envolvimento de Martin e Hannah marcou decisivamente a vida de ambos. Hannah colaborou com publicações na Alemanha. Seus textos e conceitos despertaram a atenção. Assim como sua personalidade marcante, firme e, ao mesmo tempo, receptiva e amorosa. Foi amiga leal e interlocutora de alguns dos principais intelectuais do período, como o filósofo Karl Jaspers, o crítico de arte Walter Benjamin e o teatrólogo Bertold Brecht. Com a chegada ao poder de Hitler, combateu o regime totalitário que se instalou. Quando o cerco apertou ainda mais contra judeus e dissidentes, refugiou-se na França. Com o início da Segunda Grande Guerra e a rápida invasão das tropas alemãs, precisou novamente partir, desta vez para os Estados Unidos, onde chegou em 1941. Com o marido Heinrich, estabeleceu-se em Nova York. Seu rápido domínio do inglês permitiu-lhe colaborar com publicações estadunidenses. Sua reputação só fez crescer.

Em 1961, ao partir para Israel a fim de cobrir para a revista “New Yorker” o julgamento em Jerusalém do comandante nazista Adolf Eichmann, Hannah envolveu-se na mais retumbante de suas polêmicas. Viu em Eichmann um burocrata enfadonho, previsível, monossilábico. Bem diferente do monstro genial e grandiloquente imaginado por muitos. A partir do julgamento, cunhou a expressão “a banalidade do mal”, acerca do comum e rotineiro caminho para a perpetração da afronta e da crueldade. O mal para Hannah não era uma questão teórica, mas algo concreto, com o qual se deparou ao longo da vida. E contra o qual usou seu intelecto. Estudou e pensou os conceitos, as origens, os mecanismos e a natureza do mal. No livro a respeito de Eichmann, a ferida tocada era menos o surpreendente e exato enfoque da autora acerca do burocrata ordeiro e responsável e mais o colaboracionismo de entidades judaicas aos nazistas. De como lideranças judias na Alemanha compactuaram com o regime, entregando judeus críticos do nazismo. Arendt foi acusada de transformar a vítima em algoz e pagou caro por isso. Amigos viraram-lhe as costas, foi criticada duramente por colegas e parte da “inteligência” da época. Os fatos por ela apresentados não foram negados – ainda que “justificados e contextualizados” por tantos, quase sempre na linha dos que achavam que o nazismo “não iria piorar as coisas” ou que “não havia muito o que fazer”. Hannah discordou. E o tempo todo agiu: denunciou desde o início o regime arbitrário, escapou de um campo de internação, colaborou para enviar jovens judeus para a Palestina, abrigou refugiados. Lutou sempre contra o que considerava maléfico. Escreveu que “quando as pessoas param de pensar e escolher entre o bem e o mal, entre participar e resistir, então o mal aumenta”. E acrescentou “que o mal é mais frequentemente praticado por pessoas que nunca decidiram ser boas ou más, por pessoas que não tomaram partido”.

O estilo de Heberlein é fluente e acessível. Lê-se a biografia como um romance bem arquitetado. Nas sombras em que estamos hoje mergulhados, conhecer a vida e o pensamento de Hannah Arendt torna-se indispensável.

FERNANDO BANDINI é professor de Literatura do Ensino Médio


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