Opinião

Os nove pecados capitais

A população s e deixa corromper concretamente e ideologicamente


ALEXANDRE MARTINS
ANA FOSSEN_ARTICULISTA
Crédito: ALEXANDRE MARTINS

Ao lerem o título inicial, imagino, caros leitores, sua estranheza. Nove? Seriam mesmo nove os pecados capitais?Defenderei a tese de que o Brasil é responsável pela entrada da corrupção e do bovarismo no hall destes pecados.

A definição cristã de pecado é simples, pois engloba tudo que contraria a natureza Perfeita e Boa do Criador, portanto, tudo aquilo que rompe com Suas regras. Os pecados capitais não foram relatados no livro sagrado, faziam parte do cotidiano humano, mas foram definidos posteriormente no século VI, pelo papa Gregório Magno, que tomou por base as Epístolas de São Paulo. Só se tornaram uma teorização "oficial", no século XIII, com a publicação da Suma Teológica de São Tomás de Aquino.

O pecado tem duas especificidades interessantes, originou-se no dilema de Adão e de sua companheira Eva e é passível de transmissão, ou seja, vai passando de geração em geração. Segundo Lutero, o Pecado Original feriu a natureza bondosa do humano, condenando-o a pecar uma e outra vez. Não obstante, o pecado pode ser evitado desde que o fiel se atente para suas dificuldades e fraquezas, revertendo a maldição. Os pecados capitais apontam para os vícios humanos, vícios estes que, antes do advento do cristianismo eram considerados doenças da alma pelos gregos, enfermidades como a Gula, a Avareza, Luxúria, Inveja, Preguiça, Vaidade e a Ira.

Não lhes parece que a velha corrupção brasileira se encaixaria em todos estes quesitos? Ela rouba, rompe regras, é transmissível, pois há anos pagamos as contas da roubalheira política e do crime organizado que se estabeleceu na capital nacional. Os corruptos são exímios viciados em roubar, prevaricar, mentir, agredir e inclusive em mandar matar. Faz parte de suas índoles pagar com dinheiro público jantares suntuosos, casas, carros e viagens que são fruto de uma mistura de inveja com luxúria, alimentando sua perversa vaidade. Fazem tudo isso sem pensar nos que morrem por falta de um sistema de saúde decente; neste ano, por falta de vacina contra a covid-19, na falta de oportunidade na qual se encontram nossas crianças e jovens, sem peso na consciência por roubarem descaradamente o dinheiro do contribuinte. Nosso atual governo inaugurou uma nova forma de corrupção a meu ver, o Descaso. Para todos os problemas sociais existe um "E daí?". Desvios de verbas da educação destruindo o pouco que existia, estratégias ambientalistas avassaladoras, preguiça de trabalhar para evitar que a inflação exploda e deixe ainda mais caótica a situação econômica de um país cambaleante. Porém, o mais triste de se observar é como a população se deixa corromper concretamente e ideologicamente. Entramos no ranking dos pecados capitais e ainda atropelamento sem medo os dez mandamentos.

Não obstante, nosso mais novo pecado capital é o bovarismo. Conceito que foi introduzido pelo filósofo francês Jules de Gaultier (1892) baseado na personagem principal do romance Madame Bovary de Gustave Flaubert. Emma Bovary era uma mulher pertencente à burguesia francesa que criou uma realidade paralela para viver, uma vez que, insatisfeita com sua vida, foi incapaz de sair desta insatisfação e mudar o rumo das coisas. O bovarismo consiste em uma sorte de alteração imaginária da realidade, na qual ela absorve uma noção de autoimagem deturpada. A pessoa se considera outra, deseja ser outra que, obviamente, acredita possuir características muito grandiosas e admiráveis, mas tudo isso é pura ilusão, porque a realidade insiste em mostrar-lhe que seus anseios serão frustrados. Alguns teóricos incluem o bovarismo nas formas possíveis de mitomania. O bovarismo cria verdadeiros escravos de seu próprio imaginário infantil e paranoide. Nós brasileiros somos especialistas em acreditar que aquilo que vivemos não é bem o que está acontecendo, adoramos um estado alienado e ilusório, adoramos mitos dotados de poderes supostamente grandiosos.

Com isso, pode-se concluir que, além dos pecados já catalogados, nós que acreditamos que Deus é brasileiro, que o comunismo existe e deve ser combatido em nossas terras ensolaradas, criamos, em meio ao apocalipse, duas novas categorias de pecados capitais.

ANA CLÁUDIA FOSSEN é psicóloga e psicanalista, graduada em Psicologia pela USP e pós-graduada em Psicologia e Filosofia pela Universidade Complutense de Madri-Espanha


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