Opinião

Para além de um setembro amarelo

80% das mortes por suicídio ocorrerem nos países em desenvolvimento


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ALEXANDRE MORENO SANDRI
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A campanha "Setembro Amarelo" vem se instituindo no país, desde 2015, como um momento relevante de conscientização sobre a prevenção do suicídio. Traz como mote a importância da valorização da vida e do cuidado à saúde mental, enfatizando a necessidade de não silenciarmos sobre o sofrimento psíquico.

Apenas para se ter uma ideia da dimensão da questão, no mundo, 800 mil pessoas se suicidam todos os anos e o suicídio já é, hoje, a segunda principal causa de morte entre os jovens de 15 a 29 anos. No Brasil, nos últimos 12 anos, houve um aumento de 15,3% no número de suicídios entre jovens. Apesar disto, é um tema ainda pouco abordado pelos profissionais de saúde e pela sociedade em geral, por ser cercado de tabus, estigma e preconceito. Em que pese a importância da data, corremos o risco de superficialização da discussão.

Assim, um primeiro ponto fundamental a se reafirmar é que o suicídio é, acima de tudo, uma questão social (em seu sentido mais amplo), que invoca, além das questões de saúde, a complexidade do nosso tecido social: a forma como estão se dando as relações humanas, as variáveis econômicas, a organização do mundo do trabalho, o impacto da tecnologia na vida das pessoas, a exposição às variadas formas de violência, entre tantas outras questões estruturantes do nosso modo de viver.

Um aumento no número de suicídios (algo que estamos vivenciando na sociedade brasileira) é, portanto, um indicativo de como estamos enquanto sociedade. Há algo no nosso jeito de nos relacionarmos que têm levado mais pessoas a acreditar que não há nada, aqui, que interesse. E, assim, qualquer ação de prevenção, de caráter mais amplo, precisa passar pela renovação do desejo, pela oferta de elementos que nos enlacem à vida. E aqui, cabe uma questão para reflexão: o que, para cada um de nós, faz laço com a vida?

O suicídio aponta para a ruptura radical da esperança, de que haja um outro (alguém ou coisa) que possa aplacar nossa dor e, assim, é na oferta de campo simbólico como possibilidade de lastro com a vida (em um momento de empobrecimento das relações reais com outros sujeitos e coisas) que me parecem residir as respostas. É no investimento na circulação da palavra, no valor do tempo e da escuta, na possibilidade de colocar-se no lugar do outro (e aqui, vale dizer de "qualquer" outro, mesmo aquele absolutamente diferente de mim) que precisamos estar.

Mas, para além da aproximação empática à dor do outro (que pode ser definida como uma tentativa de se aproximar emocional e cognitivamente do sofrimento do próximo), precisamos tomar uma posição ética diante da dor. Compreender que há dores que decorrem de injustiças profundas, que não podem mais ser toleradas, e que apenas transformações estruturais na organização social poderão operar. Neste contexto, não podem ser desprezados os dados que apontam que quase 80% de todas as mortes por suicídio ocorrerem nos países em desenvolvimento, ou que um número expressivo das mortes por suicídio ocorre entre populações altamente vulnerabilizadas (entre os quais, destacam-se a população indígena, LGBTQIA , idosos e pessoas vítimas de violência).

No Setembro Amarelo, ressaltamos o peso dos determinantes sociais de saúde na gênese do sofrimento psíquico. Ainda que compreendamos o sofrimento como um fenômeno transclassista, não podemos deixar, nesse momento de conscientização, de olhar para questões fundamentais como o acesso à educação e saúde de qualidade, trabalho e renda, moradia digna, lazer e cultura. A esperança na vida passa por aí, incontornavelmente!

E para finalizar, posso afirmar, tranquilamente, que nenhum modelo de cuidado em saúde é tão potente, quando se trata da atenção a questões complexas, como o suicídio, quanto aquele proposto pelas políticas públicas de saúde. O modelo de cuidado que prioriza o acolhimento à crise a qualquer tempo, o cuidado longitudinal, em rede, a oferta de atendimento multiprofissional, o monitoramento e busca ativa das situações de crise suicida são todas ferramentas desenvolvidas pela política pública e que, certamente, fazem diferença na preservação de vidas.

E que no Setembro Amarelo, e para além dele, lembremos da importância de valorização e fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS), do Sistema Único de Assistência Social (SUAS), e de todos os diapositivos de cuidado e proteção às pessoas!

ALEXANDRE MORENO SANDRI, psicólogo, Mestre em Psicologia Clínica pela USP, especialista em Psicologia do Desenvolvimento pela Unicamp, coordenador de Saúde Mental, Álcool e outras Drogas de Jundiaí


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