Opinião

O fascismo em camisas verdes

A ligação religiosa passava a ser um dos principais sustentáculos


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SISTEMA PENITENCIARIO FABIO JACYNTHO SORGE
Crédito: divulgação

Na última semana, terminei a leitura do excelente livro "O Fascismo em Camisas Verdes: do integralismo ao neointegralismo" dos historiadores Leandro Pereira Gonçalves e Odilon Caldeira Neto.

Os autores começam com uma explicação sobre o surgimento do integralismo, nos anos de 1930, como obra de Plínio Salgado, o fundador e líder do movimento. O livro narra o encontro dele com Benito Mussolini, o ditador italiano, criador do fascismo, ocorrido em 1930. Esse foi o marco zero do integralismo, o nosso modelo de fascismo.

Salgado fundou a Ação Integralista Brasileira (AIB) em 1932, sendo que, no dia 7 de outubro deste mesmo ano, fez a leitura do "Manifesto de Outubro", documento redigido por ele e que definia as diretrizes ideológicas do movimento. Composto por dez capítulos, o documento é a certidão de nascimento do integralismo brasileiro. No Manifesto, os integralistas faziam elogios à autoridade, críticas aos partidos políticos e defendiam o princípio da autoridade. Ademais, denunciavam uma conspiração contra o Brasil e propunham um programa social para defender a família conservadora, bem como um Estado de tipo fascista, o Estado Integral.

A ligação religiosa passava a ser um dos principais sustentáculos do movimento integralista. O lema "Deus, pátria e família" era repetido a exaustão, sendo que Deus dirige o destino dos povos, a pátria é o nosso lar e a família início e o fim de tudo. Por fim, houve o estabelecimento da figura do chefe nacional, função atribuída a Salgado, caberia a ele o poder centralizado e total sob o movimento, sendo que ele seria inatingível, perpétuo e ilimitado.

Na verdade, o que acontecia nos anos 1930 não era uma novidade do Brasil, havia uma onda autoritária no mundo, em especial após a quebra da bolsa de Nova York em 1929, a Itália já era fascista desde 1922, a Alemanha seguiria pelo mesmo caminho em 1933, Portugal em 1936 e a Espanha em 1939.

Atentos a questão da simbologia, o integralismo adotou a letra grega sigma, como símbolo do movimento, já que ela representava soma, o que seria a base do projeto do Estado Integral. Também foram adotadas as camisas verdes, em clara cópia do modelo fascistas italiano, das camisas negras. Ainda neste ponto, foi adotada a saudação "Anauê" que em tupi significa "você é meu parente". Plínio Salgado, o chefe do movimento era saudade com três Anauês.

Os integralistas foram favoráveis ao golpe do Estado Novo (1937), na expectativa de seriam chamados por Getúlio Vargas, para compor o novo governo, Plinio Salgado seria o ministro da educação. Como o convite não veio e a AIB foi extinta, juntamente com todos os outros partidos nacionais, houve uma tentativa de golpe de estado organizada pelo movimento, com o objetivo de depor Vargas, o levante falhou, sendo que vários integralistas foram mortos e presos. Plínio Salgado foi exilado em Portugal, de onde voltaria apenas em 1946.

Todavia, após o final da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), com a derrota do nazifascismo, o discurso integralista perdeu muito de seu impacto, já que uma onda contrária ao autoritarismo tomou conta do Brasil. Foi esse movimento que provocou a deposição de Getúlio Vargas. Assim, Salgado fundou um novo partido, o Partido da Representação Popular, mas não obteve grande apoio, tendo se tornado deputado federal por quatro mandatos consecutivos, de 1959-1974, primeiro por seu partido e após o Golpe de 1964 pela Arena. Faleceu em 1975.

Até recentemente, o integralismo parecia ser algo destinado apenas aos livros de história, tratando de um Brasil distante e esquecido. Porém, vale lembrar que o autoritarismo retornou com força ao país e ao mundo, com o mesmo discurso de violência, ódio e preconceito e principalmente de destruição à democracia, travestido de proteção a Deus, à pátria e à família.

Não custa lembrar que no último 07/09, diversas pessoas estiveram nas ruas pedindo o fechamento do Supremo Tribunal Federal e do Congresso Nacional, bem como intervenção militar com o presidente Jair Bolsonaro no poder.

Aliás, os próprios integralistas voltaram à ação, sendo os responsáveis pelo ataque à sede da produtora Porta dos Fundos, na véspera do Natal de 2019. Foram atirados coquetéis molotovs no prédio da produtora e por sorte, ninguém ficou ferido.

Como dizia Bertoldt Brecht, "a cadela do fascismo está sempre no cio", por isso, a importância da leitura do "Fascismo em Camisas Verdes: do integralismo ao neointegralismo", para conhecer o passado e entender os sinais do fascismo no presente, mesmo que travestidos de outro nome e denunciá-los, para que nunca mais voltem.

FÁBIO SORGE é defensor público do estado de São Paulo e coordenador da Regional de Jundiaí


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