Opinião

Beleza assopra o coração

A beleza não elimina a tragédia, mas a torna suportável


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MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE (NOVA)
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Paulo Bomfim (1926-2019), príncipe dos poetas brasileiros, escreveu: "Não receio cabelos brancos, temo as horas grisalhas". Tão verdadeira, no meu entender, essa colocação. Seus versos encantaram-me a partir de meus quinze anos. Décadas depois, tive o privilégio de estar com ele em algumas ocasiões através de meu querido amigo, da mesma forma escritor e presidente da Academia Paulista de Letras, José Renato Nalini, além de jurista e mestre.

As horas grisalhas, do desbotar dos tons, independem da idade. Às vezes, duram muito, em outras vão e voltam e, em algumas situações, passam depressa. Resultam da bagagem, dos acontecimentos, das perdas, de onde está centrada a esperança.

Acompanho, no meu cotidiano, histórias em que dias pálidos persistem, contudo também não deixo de ter meus momentos descorados e é na beleza que busco acalmar os dissabores para me aquecer, não na beleza fugaz, mas naquela que entra pelos sentidos e faz festa na essência.

Rubem Alves (1933-2014), psicanalista e escritor,em seu livro: "Pimentas - para provocar um incêndio, não é preciso fogo", sobre a beleza disse: "Alma não come pão. Alma come beleza. O pão engorda, faz o corpo ficar pesado. A beleza, ao contrário, faz a gente ficar cada vez mais leve. (...) A beleza é coisa de leveza. (...) Ela cai dos céus, à semelhança do maná. (...) É mística. (...) Era assim que se sentia o Criador ao contemplar, ao final de cada dia de trabalho, o resultado de sua obra: 'Está muito bom! Do jeito como deveria ser! Nada há a ser modificado! Amém!'." Comentou em outra oportunidade: "A beleza não elimina a tragédia, mas a torna suportável". Penso que a frase de Adélia Prado, escritora mineira, enriquece esse argumento: "a beleza enche os olhos d'água".

Exploro, desde que levanto, essa beleza mística, que leva os olhos a navegar e, em especial, naquilo que a natureza me oferece: flores, árvores, folhas, céu, nuvens, serra, riachos, lagos, aves, borboletas, abelhas... Ao me dispor a caminhar - não sou muito dada a atividades físicas - saio ao encontro de lugares que me encantem. Atribuído - não consegui confirmar - a José Saramago (1922- 2010), escritor português, em "Beleza Invisível": "... O ato de observar é a única chave que abre a porta dos mistérios. A paisagem de fora a vemos com os olhos de dentro. A paisagem é um estado de alma. Na realidade, o que vemos está em nós. Não vemos o que vemos, vemos o que somos...Feliz o olhar capaz de discernir a beleza do invisível..."

Talvez, a minha procura na beleza seja com o propósito de tirar as crostas que me impedem, nas horas grisalhas, o bater do coração com suavidade.

Recordo-me de nosso inesquecível pai. Gostava de nos levar a lugares de paisagens adoráveis. Ao residirmos em Poços de Caldas, em 1962, estavam em nosso cotidiano montanhas, a cachoeira Véu das Noivas, Cascata das Antas, Fonte dos Amores, das Rosas, dos Macacos, represa Bortolan... Cenários tatuados em minhas profundezas. De volta a Jundiaí, íamos com constância ao Frango Assado, onde perscrutava o bambuzal. Lembranças...Do escritor moçambicano Mia Couto: "O que é ser criança para você? É a capacidade de me continuar a espantar com a grandeza e a beleza".

Perguntei à estimada amiga Marina Neto, que é toda cantiga, qual música se encaixaria nessas considerações e ela me enviou de imediato a "Canção da Floresta" com Fagner e Zé Ramalho: "... Use as mãos, mude uma planta/ Regue o chão, faça um pomar/ Ouça a voz do passarinho... Floresta é palco de ave/ Museu de sonho e de flor./ Vamos cuidar com carinho/ Do que Deus fez com amor".

A beleza a que me refiro e me faz um bem imenso encontro a razão no Profeta Isaías (42, 5.6): "Eis o que diz o Senhor Deus que criou os céus e os desdobrou, / que firmou a terra e toda a sua vegetação, / que dá respiração aos seus habitantes, / e o sopro vital àqueles que pisam o solo:/ Eu, o Senhor, chamei-te realmente, / eu te segurei pela mão..."

Somente Deus, com Seus incontáveis acenos, pode colocar luz em minhas horas grisalhas e torná-las do amanhecer.

MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE é professora e cronista


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