Opinião

Escassez de juízo

Quão prejudicial a esta Nação a ausência de um projeto educacional


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HOMENAGEM DOUTOR JOSE RENATO NALINI NO FORUM
Crédito: divulgação

Reconhecer o óbvio - a gravidade da crise hídrica - equivale ao atestado de ineficiência do Estado. Não é de hoje que a humanidade é alertada para os efeitos do desmatamento e do excesso de utilização de combustíveis fósseis. A falta de chuvas não é fenômeno "natural". É consequência da cultura de extinção da flora, da ocupação do solo para fazer rotas asfaltadas para os veículos que funcionam ativados por petróleo, um potente emissor de gases venenosos.

Teria sido eficaz uma política estatal de reflorestamento, em lugar de estimular a derrubada da mata. Não se levou a sério a educação ambiental e, portanto, a população também se acostumou à cultura do menosprezo pelo ambiente, pelo egoísmo no consumo de tudo aquilo que é finito e num desperdício evidente e nefasto.

Não faltaram avisos. O esgotamento das represas era a crônica da tragédia anunciada. Quem não atuou na bonança terá de sofrer na carestia. Os milhões de desempregados já não têm dinheiro para comprar alimentos, e também para adquirir o gás de cozinha, agora também ficarão sem energia elétrica. E a culpa vai ser lançada em São Pedro, que não pode se defender.

Quão prejudicial a esta Nação, que se comprometeu em 1988 a edificar uma Pátria justa, fraterna e solidária, a ausência de um projeto educacional consistente. Os chineses dizem que um bom planejamento educacional deve ser elaborado um século antes do primeiro educando nascer. No país do improviso, das trocas de gestão e da reinvenção da roda a cada uma delas, isso não foi levado a sério.

Os africanos também possuem um ditado: para educar uma só pessoa, são necessários o empenho e o devotamento de toda uma aldeia.

Aqui, ainda se acredita que educar é adestrar: fazer a criança decorar informações que hoje, com um clique, são imediatamente fornecidas de maneira mais atualizada, acrescidas de um colorido e musicalidade que a aula prelecional não oferece.

Não se preocupou o Estado com a formação de professores peritos em alfabetização e, mais do que isso, indutores da curiosidade intelectual que faz com que todo ser inteligente se converta num autodidata. Nunca o planeta contou com tanto conhecimento disponível e acessível. O ser humano movido por vontade encontra respostas para todas as suas dúvidas. O professor precisaria ser aquele orientador que acompanhasse a evolução do discípulo. Ajudando-o a filtrar a inflação de informações e a escolher o melhor caminho para a conversão das informações em conhecimento, até chegar à aquisição da sabedoria.

Tudo isso explica a perplexidade de uma sociedade civil que não sabe como reagir a desmandos, que aceita um crescimento de polarização causada por fanatismo, que não sabe identificar quais os reais problemas deste país de desenvolvimento tardio, que tinha tudo para ser uma potência invejada por outros povos.

E já tivemos isso tudo. Detínhamos a maior floresta tropical do planeta. Possuíamos 12% de toda a água doce da Terra. Dispúnhamos de um clima privilegiado, com exuberante biodiversidade, povo acolhedor. Agora não temos como explicar que aqui falte água. Que tenhamos incêndio no Pantanal, o que parece uma contradição em termos: água pegando fogo. É para lembrar Bartolomeu Bueno da Silva, o "Anhanguera", que os índios assim chamaram porque ele lhes fez acreditar que podia incendiar água? Anhanguera, o "Diabo velho", inteligente porque é velho, não porque seja diabo.

A situação só vai piorar, como está previsto e nem precisa ser invocada a Lei de Murphy. Não se combate a causa, portanto, o efeito continua a ocorrer e só se agrava.

Se o Estado brasileiro tivesse juízo começaria ontem um plano de reflorestamento. Começando pelas áreas ociosas, pelos pastos abandonados, pelas margens dos rios. Para recompor o tecido vegetal sem o qual não haverá água suficiente para dessedentar os brasileiros e também todas as outras espécies viventes.

Não desconheço que ainda há os céticos. Eles acreditam que a falta de chuvas é produzida pelo "La Niña". E que outros países também a enfrentam. E que vamos sair desta porque temos condições de instalar mais usinas termelétricas e comprar energia dos vizinhos.

Os fatos estão aí: escancarados! Não enxerga quem não quer. O pior é que a conta vai para os mais pobres, os desvalidos, os sem perspectiva e, agora, sem energia e sem água.

JOSÉ RENATO NALINI é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras - 2021-2022


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