Opinião

Setembro de flores

Pensar num setembro que permita a recuperação de laços


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MARGARETE ARILHA NOVA
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Setembro amarelo. Setembro 11 de setembro. Setembro Cabul. Setembro Covid. Setembro da Independência (de quem?). Setembro tudo. Menos setembro das flores. É uma brincadeira? Não. Só que precisamos relembrar que junto com tudo o que estamos vivendo e sofrendo também há flores. Setembro é o mês das flores. Acordei com uma canção, gravada em 1997, por Emilio Santiago, que diz : "Vê, estão voltando as flores, nessa manhã tão linda, como é bonita a vida, há esperança ainda". Os dias têm sido muito penosos. A cada manhã uma nova informação familiar, da comunidade ou do país, que nos deixa perplexos diante dos fatos. Se não nos relembrarmos de que a vida é constituída também de cantos e de flores, ficará muito difícil seguir adiante. A vida segue, com sua obstinada possibilidade de reviver. Assim como as flores. Nos países de climas mais frios, o reaparecimento de flores é vivido com muita alegria. De fato, a combinação rara de cores e explosões energéticas traz iluminação. No Brasil, os templos budistas de variadas tendências registram o seu uso de maneira contundente. Elas são cantadas e apreciadas como a manifestação da pureza e do belo. As flores nos agradam, acalmam, geram uma conexão inclusive com a possibilidade de movimento de vida em cada um, em cada uma. Ao lado do luto, da necessária elaboração das perdas, a elaboração do desejo de viver. De reviver.

Freud escreveu um obra marcante. Cito "Luto e Melancolia ", de 1917,, seu trabalho estupendo, contribui para que se possa diferenciar aquilo que é da ordem do luto normal, do que viria a ser o luto patológico. Freud explica como é necessário, num processo de luto normal, se render às evidências da realidade: o objeto perdido (em linguagem psicanalítica), seja o que for, um ser amado ou um projeto de vida. O processo implica em se desamarrar, ponto a ponto, ter a evidência completa de desligamento do objeto. Ele não mais se encontra naquele local, naquele contexto, naquele mundo de anteriormente. E todos os laços vão ter que se desfazer. E se reconstituir. Um processo patológico implicaria em se acumular perdas sem que as prévias, as anteriores tenham sido elaboradas. No cinema, uma mostra importante desse processo é o filme "Melancolia", de Lars Von Trier, diretor dinamarquês. Em uma visão psicanalítica há uma estrutura, uma forma de enfrentar a perda, que vem como grande tristeza - o fato de que o planeta irá ser eliminado - e perdas vão ocorrer. Como enfrentá-las? Simplesmente deixar acontecer, tristemente?

Pensar num setembro que permita a recuperação de laços, que permita o reencontro com a vida, aqui simbolizada pelas flores, pode ser um caminho. A retomada implica necessariamente nesse confronto com o vazio, com a perda, e também no reencontro com o desejo que pode se configurar como qualquer outro projeto. Nos casos de suicídio é bastante comum que familiares se engajem em esforços que possam ser úteis para uma comunidade. Superar a perspectiva pessoal, individual, e buscar trabalhar para que outros não tenham que viver da mesma maneira o episódio de perda. Trabalhos de prevenção são muito comuns.

Trata-se da capacidade humana de reaver o sentido da vida, transfigurar o mundo pessoal, buscar causas. São formas ativas de produzir outros sentidos. De buscar dignidade naquilo que parece sem sentido, e dar-lhe algum. Essa visão é muito frequente entre pessoas sequeladas, por exemplo. Nas próprias paralimpíadas, por exemplo, pessoas de varias nacionalidades superam limites pessoais e mostram ao mundo outras possibilidades de ser diante da vida. Elaboram o luto do corpo que já não existe mais, e com os corpo que vivem, se expressam de maneira espetacular, mostrando ao mundo novas possibilidades.

Assim é a vida. Assim temos que resgatar a força e a forma de ser.

De novo. Florida. Como em setembro.

MARGARETH ARILHA é psicanalista e pesquisadora do Nepo (Núcleo de Estudos em População Elza Berquo), da Unicamp


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