Opinião

A política de Estado e as formiguinhas

Ainda exportamos produtos com a menor margem de valor agregado


ALEXANDRE MARTINS
ARTICULISTA ELISA CARLOS
Crédito: ALEXANDRE MARTINS

O Brasil não tem política de Estado. Quantas vezes eu já ouvi isso e já concordei com essa frase! Política de Estado é aquela independente do governo da ocasião. Projetos de governo duram (no máximo) 4 anos. Não é tempo suficiente para impulsionar um determinado setor industrial, para definir um política social de impacto ou um posicionamento estratégico do País na cadeia global de valor.

Todo bem de consumo é produzido através de uma cadeia. Ou seja, a matéria-prima passa por uma sequência de beneficiamentos que vão agregando valor até alcançar o consumidor final. Nos últimos 30 anos, duas coisas deixaram essa cadeia bem mais complexa: a abertura de mercados do final do séc. 20 e a tecnologia. É por isso que hoje se fala em cadeia global de valor. Se antes, as empresas faziam cada parte dessa sequência, hoje os países estão se especializando em determinadas etapas. E a outra camada de complexidade é a tecnologia. Fica fácil compreender a cadeia sequencial de valor do café: compra semente, planta, colhe, seca, torra, embala e vende. Mas e quando falamos de celulares ou de softwares?

Há um engenheiro chinês, Stan Shih, que trouxe uma teoria muito adotada nas políticas macroeconômicas no mundo tudo: a smiling curve. Shih propõe que a sequência de margens de valor não é linear como se dá no café, mas curva, como um sorriso. Ele inclui etapas que não são desenvolvidas numa produção de commodity. Para ele as etapas iniciais de conceituação tecnológica e as últimas etapas: serviços e pós-venda são as que mais agregam valor ao produto (seriam as duas pontas do sorriso). A sequência do café que citei a pouco entraria como uma única etapa: a de manufatura, que seria a base do sorriso, fase que menos agrega valor nessa cadeia. O posicionamento de alguns países na cadeia smiling é muito transparente como Estados Unidos, Alemanha e Coreia do Sul que se posicionam nas pontas, enquanto China focou esforços nacionais para desenvolver seu parque industrial e se tornou o pátio de fábrica do mundo todo (e depois de 30 anos já está mudando). O Brasil posiciona-se como exportador de produtos primários para a manufatura, não por estratégia, mas por inércia de mais de 500 anos de história de exploração. Ou seja, ainda exportamos produtos com a menor margem de valor agregado em toda a cadeia global de valor, como aço, petróleo, soja, café, assim como fazíamos com as madeiras lá no início do século 16.

Quando um país tem uma estratégia de Estado, é interessante ver que entra governo e sai governo o país continua relevante ou até avança. Não é o caso do Brasil. Na época em que trabalhei na Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial, foi a primeira coisa que ingenuamente perguntei para o meu time (especialistas responsáveis pelo desenvolvimento das políticas industriais nacionais): Qual a estratégia industrial do Brasil? Em uníssono: "o Brasil não tem estratégia". Cada Federação, cada ministério, cada organização, e o pior, cada governo cria a sua própria estratégia. E a cada 3 anos tudo para, a cada 2 anos tudo começa de novo. O que me encanta em Brasília é que, apesar desses ciclos destrutivos, ainda há a resiliência dos técnicos de governo. Enquanto há confusão no alto-escalão, os técnicos vão que nem formiguinhas, focados, dando os jeitos que conseguem para que minimamente políticas de incentivo aconteçam; para que dentro das pequenas alçadas em que podem tomar decisões garantam que algo, qualquer coisa, chegue para os brasileiros. Para mim, Brasília é uma terra de heróis, mas com certeza você não vai ouvir o nome deles.

ELISA CARLOS é mãe da Nina e da Gabi, engenheira, especialista em inovação e de volta à política pública, como head de operação na SOFTEX NACIONAL, principal instituição executora de políticas públicas para TIC


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