Opinião

Energias perversas

Hábitos desalinhados ao clima enfraquecem a nossa energia


ALEXANDRE MARTINS
ALEXANDRE MARTIN ARTICULISTA
Crédito: ALEXANDRE MARTINS

Uma grande barreira que existe para o estudo dos textos clássicos da Medicina Tradicional Chinesa (MTC) são as suas traduções. O problema reside não somente na língua, que vem de origens muito diferentes da nossa, mas também na distância cultural que dois milênios colocam entre o leitor moderno e os compiladores que viveram no primeiro e segundo século. Essa barreira é tal que mesmo para um estudioso nascido na China de hoje seria muito difícil compreender, sem estudo prévio, a linguagem figurativa e poética no qual os clássicos foram escritos.

Soma-se a isso o fato de que a quase totalidade dos tradutores não tinha nenhum tipo de conhecimento médico, eram na sua maioria missionários cujo foco era mais na expansão da sua religião no Oriente do que trazer uma ferramenta médica para o Ocidente.

Neste contexto é compreensível que a maioria das traduções às quais temos acesso hoje não tenha sido baseada nos textos originais, mas em compilados de qualidade questionável ou mesmo contaminadas de opiniões de quem realizou as primeiras traduções.

É o caso da expressão "energia perversa", muito utilizada nestes textos para se referir às doenças que acompanham as alterações climáticas, tanto as que são esperadas como a mudança das estações, quanto aquelas de curta duração e abruptas, muito comuns hoje em dia. Seria a versão poética das doenças virais, como as gripes, a dengue e outras semelhantes a estas.

Consagrada pelo seu uso, esta expressão é ainda muito presente em discussões sobre doenças infecciosas, porém eu confesso que nunca gostei dela, pois traz consigo um sentimento da existência de algum tipo de energia que é intrinsecamente má, que de alguma forma quer nos prejudicar. Isto, contudo, é um sentimento humano e um julgamento não aplicável a algo energético, intrinsecamente nem bom nem mau.

O problema permanece, mesmo se pensarmos em termos de vírus e bactérias. Essas entidades biológicas não têm em si uma intenção de nos prejudicar e nem existem para nos causar moléstia. Dentre as bactérias, as que são patogênicas, ou seja, que causam doenças ao ser humano, não chegam em número a 10% da sua totalidade.

A mesma ciência, que utilizamos para o desenvolvimento do tratamento de doenças que as envolvem, ratifica que sem elas no mundo a vida de todos os outros seres seria impossível, pois desempenham importante papel na reciclagem da matéria orgânica deixando-a pronta para reutilização.

Ao estudarmos mais a fundo os procedimentos que são recomendados nos textos antigos para prevenção das doenças causadas por essas alterações climáticas, veremos que elas são no sentido de preparar o indivíduo para tais mudanças ao invés de desgastá-lo com um combate direto contra elas.

Isso era obtido através de exercícios respiratórios e físicos, hábitos de vida adequados e alimentação, visando sempre produzir melhores condições para que nosso corpo assimilasse a mudança e nunca se opusesse diretamente a ela.

Como exemplo podemos citar as recomendações de consumir comidas de natureza mais quente e acordar mais tarde no período de inverno, para se resguardar do frio, revertendo a situação no período do verão, onde as recomendações são acordar mais cedo e consumir comidas leves e frescas.

Quando os hábitos de vida estão desalinhados com as demandas energéticas do nosso clima, eles enfraquecem a nossa própria energia e com o tempo nos tornam frágeis e suscetíveis à doença propriamente dita. Exemplo disto, envolvendo a nossa nutrição, é o surgimento em profusão de intolerâncias à lactose e ao glúten.

A partir desta visão, na interação do ser humano (e de sua saúde) com o meio em que ele vive não existe combate, animosidade, perversidade, amor ou ódio.

Trata-se da simples integração do ser e seu meio, sem precisar associar a isto características sociais humanas como presente nas expressões "vírus maldito" ou "bactéria assassina" para qualificá-las.

Existe a possibilidade de compreensão dos ciclos e mudanças naturais e a sabedoria de adaptar-se aos mesmos da melhor maneira possível, sem conflitos diretos ou imposição da nossa vontade. Assim viveremos em simbiose com o nosso meio ao invés de conflitar com o que nos é oferecido por ele.

ALEXANDRE MARTIN é médico formado pela Unicamp e especialista em Acupuntura e Osteopatia


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