Opinião

Ranking de qualidade das cidades brasileiras

Urge voltar para o lugar e não apresentar ilusões


divulgação
EDUARDO PEREIRA ARQUITETO
Crédito: divulgação

Os índices de qualidade de vida nas cidades estão sendo exacerbadamente comemorados. A quantidade de itens que conquistamos principalmente na segunda metade do século passado continua a se ampliar e é fartamente usado, repercutindo na economia, na política e no pertencimento dos munícipes.

Cidades com boa performance fazem uma disputa no país para atrair investimentos, aumentar a arrecadação e, no final, justificar uma desenfreada procura imobiliária de bens pelas vantagens que vendem.

Cada uma a seu modo se orgulha de seu potencial, estive em Goiânia, uma metrópole surpreendente em tamanho, mas que exacerba a riqueza dos seus grandes empresários agrícolas e dos investimentos imobiliários ali.

A rua está para os carros de luxo assim como as passarelas estão para as modelos de grifes chiques. Carros importados de luxo de todas as marcas e os melhores modelos nacionais disputam essas ruas com as Ranger caríssimas e cada vez maiores em dimensão, para, novamente, ostentar o status do proprietário.

Isso cria uma constrangedora cidade que não tem espaço para mobilidade de bicicletas e nem pensar então nos que podem andar pelas ruas. Por quê? Calçadas não têm, somente em alguns lugares de investimento recente. O contraste é muito grande, pobres pela cidade ao lado dos luxuosos veículos ou perto dos luxuosos apartamentos em espigões de mais de 40 andares.

Essa prática, que não é privilégio da capital de Goiás, é repetida em escala maior ou menor em quase todos os lugares que têm as mesmas características. Lá, é a segunda cidade mais arborizada do país. A primeira é Campo Grande. O paradoxo é não ter as calçadas para circular e quando tem quase sempre desmanteladas. Nos parques há outro item desprezado pela falta de manutenção, mesmo muito bem arborizados.

Com todas as qualidades que as cidades disputam, acontece que a pobreza está invadindo tudo e se tornando um problema evidente. Se sobrepõe a qualquer motivo de orgulho. De volta a Jundiaí me deparo com a revolta do meu jardineiro, que, ao voltar do serviço, encontrou a casa dele com a porta arrombada e tudo que tinha saqueado. Indignado fez um relato dramático: "desde a Argos até o SOS, há mais pedinte do que nunca. Antes era só no Centro agora em qualquer lugar. Fumam crack atrás do SOS, nas ruas."

Outro item que parece interessar muito nessa disputa são as cidades smart com o status de modernas e atuais. Isso não é verdade por aqui e precisa começar a ser corrigido. Essa história do Vale do Silício de Jundiaí, que tem o nome emprestado da matriz americana cuja história de construção é fantástica, onde estão as melhores faculdades do mundo, as mais importantes empresas e os maiores fundos de investimento, está muito distante do nosso pequeno universo. Os maiores players do país não ousam se considerar o "Novo Vale do Silício". Urge voltar para o lugar e não apresentar ilusões; um falso orgulho que aqui não podemos ter.

A sétima cidade do Brasil tem no território provavelmente seu maior valor: o preço do m². Assim tudo o que puder será ocupado e vendido, estoques de terra já reservados para a venda em posse e em reserva garantem às empreiteiras e empresas possuidoras o faturamento que esse status dá ao consumidor.

Quarta-feira, o JJ noticiou a manifestação dos moradores da Rua Trenton e do Parque do Colégio, que cobram a participação popular que afirmam não ter acontecido para as alterações no Plano Diretor. E pedem para voltar ao estado anterior, ou seja, que voltem ao zoneamento anterior e que se consideram prejudicados por todas as razões expostas no processo encaminhado ao Ministério Público.

Tudo isso está ligado e constitui uma forte pressão para que a cidade continue a ofertar m² de apartamentos e acomodem o trânsito e comércio em lugares que não tinham essa vocação. Ilhas de bairros de baixo gabarito não são muito bem vistos por alguns conselhos e técnicos de planejamento urbano.

Essa manifestação chama a atenção para falhas nos critérios de consulta pública que precisam ser permanentes e amplamente divulgados. O canal de consulta não pode ser mais um para cumprir a lei. É preciso ter eficiência na gestão participativa para que não resulte apenas nas solicitações de mais asfalto e mais segurança!

EDUARDO CARLOS PEREIRA
é arquiteto e urbanista


Notícias relevantes: