Opinião

O que fazer para agir bem?

Ser virtuoso, portanto, é saber agir no contexto


ALEXANDRE MARTINS
FELIPE DOS SANTOS SCHADT ARTICULISTA
Crédito: ALEXANDRE MARTINS

Se você perguntasse para Aristóteles o que se deve fazer para agir bem, ele prontamente te responderia que para saber se você agiu bem, basta perguntar para um homem virtuoso se a sua conduta foi boa. Muito bem, e se você perguntasse quem são esses homens virtuosos, ele te diria que um homem virtuoso é aquele que sabe como agir bem. E você se sentiria enrolado pelo filósofo grego.

E nessa brincadeira você ficaria horas tentando decifrar qual é a boa conduta e o que faz de alguém um homem virtuoso. Enquanto você não percebesse o óbvio, você ficaria preso nesse looping filosófico que daria inveja aos roteiristas de Dark. Esse ciclo só seria quebrado quando você entendesse que, em primeiro lugar, não há uma resposta fixa para a pergunta "Agi bem?". Isso porque o valor da sua conduta vai depender do contexto no qual ela está inserida. Ou para facilitar, não existe certo ou errado, tudo vai depender da situação.

Um dia, sua mãe chega em casa depois de horas no cabeleireiro. Ela está muito empolgada com o novo corte e está se sentindo alguns anos mais jovem. O novo corte não te agradou nem um pouco. Mas aí ela te pergunta toda esperançosa: "Você acha que eu estou bonita?" Você congela como na cena final da novela e não sabe o que fazer.

"Como agir bem?" Ser sincero e dizer que não achou bonito e entristecer sua mãe ou ser carinhoso com ela, dizer que achou bonito mentindo descaradamente? O que o homem virtuoso faria? O homem virtuoso saberia exatamente o que fazer e se você não sabe o que fazer, significa que você não é virtuoso.

Ser virtuoso, portanto, é saber agir no contexto. Saber exatamente o que falar para a mãe. Saber se deve ou não deve. Se vai ou se não vai. Se faz ou se não faz. O homem virtuoso não tem dúvidas, pois ele faz somente aquilo que deveria fazer. Alguém virtuoso saber agir com justiça, faz da excelência um hábito, sabe como fazer e faz o que sabe, vive de acordo com as suas características, é fiel as suas inclinações e faz das suas virtudes a bússola da sua existência.

É… Parece que ser virtuoso da um trabalho danado. Mas se você parar para pensar, colocar na ponta do lápis, não é uma utopia.

A essência do homem virtuoso de Aristóteles é aquela pessoa que respeita a própria natureza. Veja a coruja, por exemplo. Animal graciosamente virtuoso. E por quê? Oras, a coruja não tenta ser outra coisa a não ser uma coruja. Ela respeita as suas próprias características e faz da suas virtudes a condutora de sua vida. Sabendo voar, ela voa. Sabendo se esconder, ela se esconde. Sabendo caçar, ela caça.

Uma vez eu me fiz a seguinte pergunta: "Como dar a melhor aula?" Seguir a cartilha aristotélica do homem virtuoso já era uma dica. Entender minhas virtudes e respeitar minhas características como professor. Se sou bom gritando, seguindo anotações do meu caderno, subindo na mesa e falando um ou outro palavrão, não adianta eu querer dar uma aula falando baixo, usando slides, andando de um lado para o outro e não soltando uma palavra de baixo calão de vez em quando. Já até tentei, mas eu fiquei tão infeliz com a minha performance que pensei que se a aula foi miserável para mim, imagina para os que me assistia?

Aristóteles explica que a boa conduta, aqui no caso a boa aula, é aquela que além de respeitar suas virtudes e características causa em você total satisfação. Ou seja, faça para os outros aquilo que você queria que fizessem para você. No meu caso, dou a aula no qual eu gostaria de ter se eu estivesse assistindo.

Claro que posso não agradar ninguém com a minha didática. Mas para o homem virtuoso, a boa conduta é aquela que respeita quem você é, suas características e suas virtudes. A minha aula respeita quem eu sou, minhas características e minhas virtudes. Se isso vai agradar alguém… Aí já é outro papo. Afinal de contas, viver para agradar o outro é um tanto nefasto e perigoso, pois a decepção é quase que certa. Prefiro agradar a única pessoa que terei que conviver o resto da vida, ou seja, eu mesmo.

E agora eu te pergunto: e você? Quando faz o que você faz, você age bem?

Conhecimento é conquista!

FELIPE SCHADT é jornalista, professor e cientista da comunicação pela USP


Notícias relevantes: