Opinião

Envelhecer é uma arte

Como a indústria não se adapta ao ser, o ser adapta-se à indústria


ALEXANDRE MARTINS
ARTICULISTA RAFAEL AMARAL'''''
Crédito: ALEXANDRE MARTINS

Ligo a Amazon Prime e me deparo com Robert De Niro. Não o De Niro dos bons tempos, das antigas parcerias com Scorsese. O De Niro em questão posa ao lado de um garotinho cujo nome ignoro, tem duas faixas pretas pintadas sob os olhos, como se estivesse preparado para a guerra. A nova patota chama-se "Em Guerra com o Vovô".

Envelhecer é uma arte. Há artistas que fazem isso muito bem. Outros não reconhecem a enrascada e insistem no ridículo. Robert De Niro tem insistido no ridículo há alguns anos. Não dá para saber o motivo real, mas dá para supor alguns e até assinalar o marco inicial desse declínio: "As Aventuras de Alceu e Dentinho", de 2000.

Aos motivos: um ator de tal calibre percebe as mudanças em curso em Hollywood, percebe que o material inteligente com o qual lidava, antes, não é mais abundante, percebe que alguns grandes cineastas já se aposentaram ou morreram ou perderam o interesse nessa fábrica de sonhos. E esse mesmo ator, agora com rugas na face, quer seguir trabalhando. Como a indústria não se adapta ao ser, o ser adapta-se à indústria.

Outra questão, a mais cruel de todas, pode estar por trás dessa enrascada: Hollywood tem pouco espaço para atores idosos. A eles quase sempre sobram coadjuvantes. E o fato de De Niro fazer um filme que parece ser sobre idosos e precisa, o tempo todo, remeter-nos às traquinagens da infância, diz muito sobre o espírito do nosso tempo.

A adolescência e a infância têm ditado as regras do jogo no cinema de grande público. Em suma, a matinê ganhou o jogo. Nivela-se tudo no nível do besteirol, da piada baixa, nada a ver com o show de tortas na cara - carregado de inteligência - que se via no tempo de mestres como os Irmãos Marx. A comédia física atual é pueril e apelativa.

A fórmula é a seguinte: o vovô precisa ser o idiota da vez, o ultrapassado, e aceita o combate do netinho que quer seu quarto de volta. Sim, o vovô não tem mais controle sobre seu próprio universo (ficou velho!) e vai viver com a filha. De Niro é o verniz que o estúdio precisa para dar algum ar de qualidade ao empreendimento, a essa história sobre um "confronto de gerações", fast food fílmico para matar o tempo de alguns.

Isso não quer dizer que o ator só tem feito bombas. "O Irlandês" está aí para provar. Na pele do matador de aluguel Frank Sheeran, ele tenta compor algo trágico enquanto ainda carrega os lábios trêmulos e as expressões vacilantes que adquiriu justamente nas comédias dos últimos 20 anos, como a série "Entrando Numa Fria" (outra vez como o senhor ranzinza contra o novo, o genro vivido por Ben Stiller).

Nos coadjuvantes dessa leva cômica, De Niro teve de vestir seus próprios personagens, mas como farsa ou clichê. São assim os mafiosos das comédias "Máfia no Divã" e "Trapaça". Ou ainda ser a referência a um passado distante - o do cinema da Nova Hollywood - na Nova York suja de "Taxi Driver" levada ao "Coringa" de Todd Phillips.

Por sinal, "Taxi Driver" apresenta todo o poder desse ator genial: em cena, ele não precisa explodir ou fazer caras e bocas para acenar à sua época. Estão ali o pós-Vietnã, o pós-Watergate, a impressão de que muito se caminhou para não chegar a nada, e de que tudo ainda podia piorar. Mais que personagem, Travis Bickle é uma enfermidade.

O filme foi dirigido por Martin Scorsese, cuja parceria com De Niro começou no extraordinário - e menos lembrado - "Caminhos Perigosos". Depois ainda viriam "Touro Indomável" e "Os Bons Companheiros", entre outros. Momento riquíssimo. E não se pode esquecer das uniões com Michael Cimino ("O Franco Atirador"), Bertolucci ("1900"), Elia Kazan ("O Último Magnata") e Sergio Leone ("Era uma Vez na América").

Para alguns, envelhecer nem sempre é uma arte no mundo do cinema. Significa jogar o jogo, aceitar a disposição das peças, e se apoiar na desculpa de que o entretenimento basta. Pobre é a indústria que não têm mais bons trabalhos para homens como Robert De Niro. Torço para que "O Irlandês" não seja uma exceção. Ainda há tempo para redefinir a rota.

RAFAEL AMARAL é crítico de cinema e jornalista; escreve em palavrasdecinema.com


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